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A atriz Vívian Renolli vem de uma família de amantes da arte, e antes mesmo de nascer ela já estava “predestinada” a entrar no mundo artístico. Isso porque seu nome, que foi escolhido por seu irmão, é inspirado na atriz Vivian Vance do sitcom “I Love Lucy”. E esse é só o início de uma vida dedicada a viver nos palcos, nos sets e nos bastidores. Ela até tentou abafar essa paixão pela arte, conciliar duas profissões, tanto que cursou engenharia, mas o sentimento falou mais alto e Vívian trocou os números pelas telas de cinema.

Quem vê a carioca falando cheia de desenvoltura, não imagina que a timidez já foi tamanha, causando até receio em falar com outras pessoas. E foi por conta desse jeito introvertido de Vívian que ela conheceu os palcos. “Meu pai me colocou pra fazer teatro porque eu era muito tímida. Quando comecei no teatro, aos 11 anos, tinha o cabelo enorme e a professora sempre falava para levar um elástico para prender meu cabelo e ver o meu rosto. Era tão tímida, que esquecia de propósito”, se diverte Vívian.

No dia 13 de setembro, ela estreou na série “Central de Bicos”, no Multishow, ao lado de Babu Santana, Maurício Manfrini e Marisa Orth. Confira a entrevista!

Curiosamente, você fazia faculdade de engenharia, mas acabou saindo para se dedicar ao teatro. Essa mudança, apesar de inusitada, é algo que já vem de dentro pela paixão familiar pela arte. Em algum momento da sua carreira você já chegou a pensar “talvez eu devesse ter seguido a engenharia” ou considera a que teve a sua melhor escolha?

Não digo ‘’talvez eu devesse ter seguido engenharia’’, mas com certeza imaginei como seria minha vida se eu tivesse sido engenheira. Principalmente, porque eu não deixei de transitar pelo mundo das exatas. Eu frequentava as festas de formaturas dos meus amigos de faculdade, conversava com eles sobre o trabalho deles e me imaginava como teria sido se eu tivesse ido até o final com a faculdade de engenharia. Mas eu fiz a melhor escolha que eu poderia ter feito. Não me arrependi em nenhum momento. A faculdade de Teatro só me trouxe mais certeza de que esse era o meu caminho. Eu não me via mais fazendo engenharia ou qualquer outra coisa que não tivesse arte envolvida de certa maneira.

Apesar de sua desenvoltura, você era tímida quando mais nova. Como o teatro contribuiu para que essa sua timidez fosse posta de lado?

O teatro me proporcionou a ter coragem de enfrentar o medo. Aquela famosa frase, se está com medo, vai com medo mesmo. O teatro me deixou mais proativa nesse lugar. Quando eu era criança, deixava de pegar o elevador com alguém para não ter que conversar de tão tímida que eu era. No teatro eu não podia fazer isso. Eu não podia esperar o ‘’próximo elevador’’ para decidir se eu entrava ou não. A partir do momento que a cortina se abria, eu tinha que estar lá e encarar minha timidez. Me ajudou a lidar com as minhas inseguranças de uma maneira mais saudável, mais artística. Saudável. Hoje em dia adoro uma conversa de elevador. Eu converso com todo mundo, faço perguntas. Faz parte do meu material de trabalho conhecer o ser humano.

“Lúcia” foi seu primeiro esquete, selecionado para o Festu – Festival de Teatro Universitário. Qual foi a sensação de tê-lo posto a público?

Foi uma sensação muito gostosa de dever cumprido misturado com a adrenalina e pressão de apresentar algo meu pela primeira vez. Foi, também, a primeira vez que me subi em um palco, num festival, totalmente sozinha. Passei por várias sensações até ter isso posto a público: O processo solitário de concepção da esquete, a pressão do teste que tive que fazer para a banca do festival antes de entrar, de fato, na mostra competitiva, a felicidade de saber que minha esquete foi selecionada…Enfim, foram várias sensações que tive ao longo de todas as etapas e quando me apresentei foi um sentimento de felicidade. Teve um sentimento que me comoveu mais e que foi por causa de uma espectadora que encontrou minha rede social e me mandou uma mensagem agradecendo. Dizendo que ficou emocionada com a minha apresentação e que me tinha achado muito corajosa. Essa única mensagem valeu toda a incerteza, lágrimas, pressão, acertos que tive durante o processo. Só por eu ter conseguido criar essa conexão com essa pessoa já valeu todo o esforço.

Todos os seus feitos te levaram a grandes oportunidades, uma delas foi o treinamento do LUME Teatro em Campinas. O que essa experiência contribuiu para você até hoje?

O treinamento do LUME realmente foi transformador para mim. Fiquei muito feliz de ter sido selecionada, sempre ouvi falar deles, li os livros sobre o processo de criação dos atores, já tinha visto várias peças da companhia então foi muito incrível ter essa oportunidade com eles. O que eu aprendi ali sobre parceria, de respeitar o trabalho do outro ator, não julgar o outro e nem a si mesmo, de aprender que só podemos controlar o que é nosso, eu levo para vida até hoje. Eram horas e mais horas de treinamento, de exaustão física, que eu achava que não tinha mais força para conseguir executar determinado exercício, mas no final sempre tinha. No LUME aprendi quais eram meus limites realmente físicos e os criados pela minha cabeça. Tem um exercício de ativação de centro de gravidade corporal que uso até hoje antes de entrar em cena. O encontro que tive com os meus colegas de profissão de cada lugar do Brasil, de diferentes culturas, e com o treinamento foi enriquecedor. Esse treinamento me ensinou a ser uma atriz mais disciplinada, focada e ter autonomia no meu aquecimento corporal e trabalho.

A arte pode ter diversos significados para quem vê. Para você, o que é a arte e o artista em si?

Eu acredito que todos nós seres humanos somos de certa forma artistas. Ser artista pra mim, envolve expressar de forma criativa suas experiências, seus pensamentos, sua visão de mundo, seu eu interior. E essa expressão resulta em arte.

Atualmente em Central de Bicos, você está mais centrada na área da comédia. Como foi para você ter que se adaptar a esse meio que exige tanto o improviso e a precisão?

Eu nunca me achei uma pessoa inclinada para a comédia, apesar dos meus amigos me dizerem que sim. Achava que eu tinha que ser engraçada, fazer as pessoas rirem o tempo todo. Mas aí que tá. A comédia não é você ser engraçada, é você se permitir brincar com seus próprios defeitos, ser vulnerável. Voltar a ser criança e brincar sem medo de errar. Na comédia, os erros são as cerejas da performance. A comédia também exige que você tenha presença, um timing e uma espontaneidade. Não dá pra ter julgamentos, você precisa ir na direção contrária do óbvio, do que estão esperando de você. E ter todo esse processo de raciocínio, disponibilidade para cometer erros foi que eu precisei mais para poder atuar do lado desses atores que fazem isso há muito tempo.

Babu Santana, Maurício Manfrini e Marisa Orth são grandes nomes na qual você está contracenando junto. Como é esses momentos de união durante as gravações? Quais os ensinamentos que você adquire de cada um deles?

Nem parecia que era gravação. Pareciam que eram amigos se reunindo e contando histórias e ajudando o outro a criar momentos de diversão. Eles são muito rápidos em construir uma piada. Na leitura que a gente fazia eles já eram bastante ágeis no pensamento, mas no set, caracterizados, com os objetos de cena, o ritmo se transformava para melhor. O mais gostoso era perceber que a gente estava se divertindo de fato fazendo. As pessoas estavam tão entregues neste trabalho que quando alguém errava, as pessoas improvisavam em cima e começavam a rir. Tínhamos uma plateia ao vivo com a gente que assistia de outra sala. Eles eram a nossa referência para saber se estava dando certo uma piada ou não. E na maioria das vezes super dava. Eles são atores incríveis, comprometidos e engraçados. Já estão no mercado há muito tempo, então foi legal ver a forma com que eles trabalham, a forma de pensar na construção de uma piada. Eu passava o dia inteiro rindo com eles. Tudo era motivo de brincadeiras entre si. Um set com clima descontraído.

Drama, comédia, suspense, romance, todos os temas exigem muito do artista, mas para você, qual foi aquele que demorou mais para se adaptar?

Acho que a comédia. Eu tive que me permitir rir de mim mesma e para isso fui me especializando. Fui fazendo aulas de improviso, de palhaçaria para ficar mais confortável em descobrir meus defeitos, me aceitar e brincar com isso. E no final se tornou um processo maravilhoso. Cada dia mais me apaixono pela comédia.

Além de atriz, você também trabalhou por trás das câmeras, como por exemplo em “Bom dia, Verônica”. Ter a noção de como é trabalhar fora das câmeras ajuda no processo de trabalhar por dentro delas?

Com certeza. Estar em um set de filmagem pode ser muito assustador para quem não está acostumado a trabalhar em um. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Temos mais de 80 pessoas envolvidas para rodar um filme. Todas com o mesmo objetivo. É um trabalho colaborativo, de toda a equipe por trás das câmeras e de nós atores também. Quando eu pego um copo sempre na mesma fala, por exemplo, eu não estou só ajudando a pessoa responsável pela continuidade do filme que tem que reparar em mil coisas ao mesmo tempo, mas também ajudo na ilha de edição na hora de editarem as minhas cenas. Evito ter aquele tipo de distração de continuidade, às vezes, gritante durante minha performance. Ou até mesmo saber se movimentar junto com a câmera que tem um tempo que não é igual ao nosso passo cotidiano ou dialogar com a arte sobre objetos de cena que posso utilizar a favor da minha performance. Mas acho que o mais importante que aprendi foi como executar meus próprios projetos com mais clareza. Conheço agora todas as etapas que um filme precisa ter para ser filmado. E nós, como atores, precisamos desenvolver nossos próprios projetos e saber como executá- los da melhor forma possível.

Quais são os projetos do futuro?

Estou me preparando para trabalhar na nova série da Amazon com co– produção com a O2 FIlmes, Cangaço Novo, que iremos filmar no Sertão da Paraíba. Estou muito animada. A série será dirigida por Aly Muritiba e Fabio Mendonça, que são dois diretores incríveis que eu sempre quis conhecer e agora vou ter a oportunidade de trabalhar com os dois ao mesmo tempo. Esse projeto mal começou e já estou percebendo que será muito especial e único.

Ainda este ano, também, farei um projeto voluntário dando aulas de atuação para pessoas em situação de vulnerabilidade, explicando como funciona os bastidores de cinema pela perspectiva dos atores e como eles podem aprender estando por trás das câmeras também. Sempre foi um desejo meu compartilhar aquilo que eu aprendi de alguma forma com as pessoas e chegou esse momento.

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Autor

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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