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Destaque da música paraibana, Naldinho Freire lança pela primeira vez em todas as plataformas de música seu álbum de estreia, “Lapidar”. Lançado em 1995, o disco marcou a busca e as primeiras composições de um artista e fecha um ciclo histórico, abrindo espaço para novidades.

O disco levou o artista a diversas capitais do Brasil e países da Europa com sua MPB cheia de poesia. Desde então, ele lançou outros três álbuns e um DVD e se consolidou como um importante nome na educação musical e gestão cultural, seja representando o Brasil em turnês pelo mundo, seja com seu trabalho na Funarte como representante para as regiões Norte e Nordeste entre os anos de 2011 e 2016.

Essa jornada teve seu pontapé inicial em “Lapidar”, que reflete as vivências em sua cidade natal e escancara os seus anseios de homem, profissional, cidadão e a sua preocupação de construtor de uma arte transformadora.

Produzido pelo próprio Naldinho Freire, “Lapidar” é um lançamento digital Caravela e Warner Music Brasil. Confira a entrevista:

Lançado originalmente em 1995, o seu álbum de estreia está entrando nas plataformas agora em 2021. Como foi a decisão de disponibilizá-lo pela primeira vez esse ano?

Quando o Lapidar foi lançado, no ano seguinte, 1996, recebi uma proposta de editá-lo em CD, eu estava na Alemanha com concertos de divulgação do álbum, a burocracia entre o Brasil e Alemanha e os valores para a fabricação não permitiram essa edição lá, a plataforma CD estava em seu início. O encontro no Rio de Janeiro com cantautora e multi instrumentista Aline Vivas, diretora do Selo Caravela Records, me permitiu o contato com o sócio dela Dudu Oliveira, numa de nossas reuniões fizeram-me a proposta de lançamento pelo Selo Caravela Records, com a distribuição nas plataformas de música da Warner Music, ou seja, dupla honra. Além de que Dudu me trouxe para o lugar da rememória, de experimentar esse voltar às minhas origens, ao meu bairro na cidade em que nasci, João Pessoa – Paraíba, reconectar-me com os parceiros desse álbum.

O álbum “Lapidar” abriu portas para vários momentos incríveis que viveu na sua carreira até o momento. Como faz o balanço desses 26 anos de caminhada na carreira musical?

Sim, Lapidar é a base para os voos musicais, a janela pro mundo fonográfico, depois dele outros registros vieram e nesses 26 anos percebo o quanto é necessária a generosidade, o afeto, o intercâmbio cultural, a dedicação aos nossos projetos de vida. A música em minha caminhada é a linguagem que através dela expresso-me enquanto ser desse planeta terra, ao longo desses anos eu e a música nos unimos nessa construção diária, nos fortalecemos para enfrentar as turbulências desses voos. Não é uma caminhada linear e nem fácil, são muitos os desafios, mas que as conquistas os superam e nos fazem seguir.

Uma de suas principais características, é a presença de uma MPB mais poética em suas composições. Quais são seus principais critérios quando está em seu processo criativo e como ele funciona?

Eu desenvolvi inicialmente a canção (Música e Texto), depois do Lapidar, pesquisei a música de tradição oral do Nordeste brasileiro e nela percebi outros elementos que a Música Popular Brasileira utiliza e ressignifica. Essas duas experiências me levaram ao álbum “Sem chumbo nos pés”, onde acrescentei porções da música eletrônica. Portanto, é critério para a minha criação cancioneira a pesquisa, o dedicar-se à linguística, a parceria com os/as poetas, o perceber das naturezas… Como isso funciona e se materializa na linguagem música, acontece a partir do meu encontro comigo, muitas vezes utilizando um instrumento musical, ultimamente o violão. Nesses momentos esses aprendizados são amalgamados e transformados em música naturalmente, num processo de felicidade.

Quais foram os seus sentimentos em voltar a ouvir suas primeiras músicas mais de duas décadas depois?

Sentimento de retorno ao meu início, senti e percebi a minha coragem em compor com poucas informações técnicas, senti a pureza desse período e conforme já mencionei a generosidade dos meus parceiros, músicos mais experientes do que eu à época e que participaram do álbum, criando um tecido musical fortalecido e que vestiu as composições. Senti que ali eu já caminhava buscando a poética, uma identidade que representasse a mim no todo, senti e voltei às lembranças dos primeiros voos musicais. Percebi também que algumas composições estão atuais, Ex.: Meninos – “Ainda dizem que os meninos da candelária tentaram revidar…”

Ao lançar pela primeira vez em todas as plataformas de música seu álbum “Lapidar” que marcou sua carreira em 1995, posso imaginar que muitas coisas, até mesmo pensamentos anteriores tenham mudado do Naldinho Freire do passado para o de agora. Como se deu o seu crescimento profissional?

O “Lapidar” tem em suas canções uma preocupação política, Ex.:  Vida Cruel, Saga de um lavrador, Meninos…, vivíamos um tempo de muita luta, qual atualmente, luta inicial pela reforma agrária, o surgimento da Teologia da Libertação e da Pedagogia do Oprimido. Nesse momento em que o “Lapidar” é rememorado nas plataformas de música, estamos a vivenciar dificuldades similares, o neofascismo encontrando lugar a partir de um golpe na democracia. Através da arte que produzo, o meu envolvimento e contribuição com a luta por transformações de realidades que apresentam injustiças, continuam o mesmo. No sentido musical ganhei mais musculatura, mais informações a partir dos estudos realizados e experiências práticas, a vivência na academia estudando a história da música, a teoria musical e suas nuances, o intercâmbio cultural com outros países, poder trocar conhecimentos com músicos de outras regiões do Brasil e de outros países, o meu encontro com a cultura caboverdiana, com a Crioulização, a participação nas gestões de cultura, contribuíram muito com o meu crescimento profissional.

Nos conte um pouco sobre quem é Naldinho Freire.

Naldinho Freire, uma criança do bairro de Cruz Armas, João Pessoa – PB, que teve acesso às linguagens artísticas em casa e nas escolas do seu bairro, um adolescente/ jovem que nos envolvimentos com os movimentos sociais e de  pastorais, conheceu o grupo musical Jaguaribe Carne (Jaguaribe, bairro vizinho a Cruz das Armas), grupo dos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, com ideias culturais antropofágicas e de guerrilha cultural. Pedro Osmar, mentor do Musiclube da Paraíba, associação de artistas, que Naldinho Freire integrou nos anos 90, onde se fortaleceu para gerar o vinil “Lapidar” e criar base para sua profissionalização. Atualmente um artista com o corpo e os pensamentos no mundo, consciente da música que cria e para quem cria. É natureza com suas virtudes e suas idiossincrasias, se entrega e defende esse estado de ser, afetivo amoroso, gosta dos cheiros, dos sabores, valoriza a vida em sua plenitude.

Em linhas gerais, a música pode ter significados diferentes para cada pessoa. Em sua visão, o que faz com que as pessoas tenham tanto apego à música?

Sim, são muitos os significados que um ser pode ter sobre a música, nascemos com ela, produzimos sons desde o nosso estado no ventre materno, para mim o que você diz que é apego, vem desse lugar, é ali que em nossa formação, escutamos os sons externos que vêm da nossa mãe, do nosso pai e dos ambientes externos. Quando adentramos ao mundo, encontramos toda essa realidade cada vez mais sonora e em ordens diferentes, os sons que produzimos com o nosso corpo, os sons da casa, os sons da rua, as influências musicais familiares e externas, vão criando essa ligação forte entre nós e a linguagem música, se formos estimulados e direcionados, essa relação entre a música e o ser humano tornar-se amorosa.  

A tecnologia veio para unir cada vez mais o público com seu ídolo. Como você encara essa nova adaptação que além do físico, é possível conversar e ‘abraçar’ seus fãs de forma virtual também?

Sou de um geração em que a comunicação e as ações eram físicas e analógicas, vimos nos adaptando às novas formas de comunicação. Eu procurei sempre me manter atualizado e busquei entender e utilizar as ferramentas que nos proporcionam esse ‘abraçar’. A pandemia do COVID – 19, nos fez aprofundar essa relação virtual com o nosso público, além de experienciar concertos virtuais, criar web clipes à distância etc., talvez não agimos com a velocidade que nos é exigida pela linguagem virtual. Mas, percebo que conseguimos trabalhar com esse universo virtual de acordo com as nossa condições.

Um grande abraço, Andrezza. Grato também ao selo Caravela Records, a Warner Music Brasil, a Build Up Media e a produtora cultural Renata Marques!

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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