Tempo de Leitura: 7 Minutos

As vozes femininas que ecoaram – ou que tentaram silenciar – ganham destaque na websérie “Compositoras do Brasil”, com produção do Ostra Festival e direção de Dani Pinheiro. Em três episódios, o projeto trará entrevistas para debater as origens da música popular brasileira contadas a partir da narrativa pouco falada das mulheres compositoras. Os dois primeiros episódios da trilogia já estão no ar.

Entre as entrevistadas, estão desde compositoras consagradas como Ana Terra, Zélia Duncan e Alice Ruiz até novas compositoras como Thais Vilela, Jack Rocha e Doralyce.

Fundada em 2017, a Ostra é um espaço de liberdade e protagonismo da mulher na música, onde artistas, compositoras e intérpretes se apresentam e trocam entre si. A série, junto de um festival virtual ocorrido em março, foram realizados com recursos captados através do edital Fomenta Festival RJ, pela Lei Aldir Blanc. Confira a entrevista:

Com o recém lançamento de três episódios, “MULHERES COMPOSITORAS” traz uma história que aborda algo muito importante que é são as vozes femininas, e que muitas vezes é vítima de censura pelo machismo. De quais formas o projeto buscará tratar o tema?

Gabi – O projeto Ostra festival acredita na valorização da mulher e das suas histórias na música. Nos filmes pudemos visitar realidades passadas vividas por muitas compositoras em relação com a maternidade, o machismo e racismo cotidianos, no caso das mulheres negras. Ao mesmo tempo, as realidades das entrevistadas abrem espaço de aprendizado e escuta para as próximas vozes que estão por vir. Com os 10 shows, compartilhamos um espaço de afirmação, afeto, respeito e cuidado com a música feita por mulheres.

Dani – Em relação aos filmes, buscamos tratar o tema através das falas das personagens, de um lado entrevistando autoridades na história da música, o que validou a tese central em relação às lutas das mulheres na música, e de outro lado com as próprias compositoras contando suas experiências, processos e realizações na música, apesar de todas as dificuldades impostas por um setor estruturalmente machista.

Eliza – Nos filmes, falamos da história da música e da composição sob o protagonismo das mulheres. Entrevistamos pesquisadoras e compositoras para construir a narrativa, que, assim como a história das mulheres, perpassa o machismo, o racismo e os preconceitos enraizados na nossa sociedade, que atinge as mulheres musicistas.

O projeto também traz algo muito especial que são as entrevistas com diversas mulheres representando as vozes musicais femininas. É importante abrirmos espaços para a valorização dos artistas nacionais? Como é a presença e a valorização dos nomes nacionais no entretenimento?

Gabi – É extremamente importante abrir espaços para a valorização dos artistas nacionais. Tem muitos trabalhos incríveis sendo produzidos no Brasil. Nossa diversidade artística e musical é imensa. Precisamos apenas de melhores investimentos que cheguem até o artista independente. Vejo que grandes nomes da música brasileira continuam a ser valorizados, mas, entendo que tem se criado também espaços para novas músicas, novas estéticas que dialoguem com o público. E isso pode coexistir. Que venham novos artistas somar em outras percepções a serem expressadas. Espero que essa abertura que o virtual traz continue somando para o crescimento e visibilidade do artista nacional.

Dani – Como a Gabi disse é importante abrirmos espaço, penso que em todas as artes precisamos criar mecanismos para a ocupação dos espaços existentes e a criação de novos, na música não é diferente. Precisamos pensar nos recortes sempre, por isso, entrevistamos mulheres diversas, mães, brancas e negras, casadas ou não, lésbicas, periféricas, cada uma trazendo sua declaração de dificuldade pra ocupar esses espaços.

Eliza – É muito difícil ser artista no Brasil, a conjuntura política não incentiva a gente que vive de arte. Então, nós brasileiros precisamos valorizar a arte produzida aqui também. E principalmente, a arte independente. Os artistas nacionais ganham espaço atualmente através da internet, das plataformas de streaming e do conteúdo digital, por isso, é muito importante que a gente consuma os artistas menores, escute suas músicas, curta, comente e compartilhe sua arte para que ela alcance cada vez mais pessoas. E é importante pensarmos quantas mulheres têm na nossa playlist? Quantas são negras, indígenas, com deficiência, ou fora dos padrões? A gente precisa conscientemente abrir esses espaços para novos artistas.

Quando foi que surgiu a ideia de realizar as entrevistas com compositoras femininas para abordar o tema escolhido ?

Ambas – A ideia de fazer os filmes passa por um lugar de desejo de memória nas histórias das compositoras brasileiras, e quem melhor do que uma compositora para contar suas próprias histórias? Fizemos muitos convites e a grande maioria gostou do movimento e topou.

Um dos objetivos do projeto é de dar maior visibilidade às mulheres que  são compositoras  bem como o seu reconhecimento no cenário da música?

Gabi – Sim, pensamos na Ostra Festival como um movimento de fortalecimento em rede, 97% das pessoas que trabalharam para que o festival todo acontecesse eram mulheres, gravação e edição dos curta, oficinas, produção, shows e banda. Acreditamos na valorização do trabalho das mulheres na música e em uma maior inserção das mulheres no mercado de trabalho musical.

Dani – Total. Desde a curadoria para a Ostra festival houve a preocupação em dar essa visibilidade a compositoras de estilos diferentes e vindas de realidades diferentes para que pudéssemos impulsionar esse reconhecimento delas. Nosso maior objetivo é valorizar o trabalho da mulher compositora e dar visibilidade a cada uma pelo seu trabalho.

Eliza – Com certeza! É de suma importância começarmos a pensar que existem nomes femininos por trás de grandes canções.

Como tem sido o feedback do público com esse projeto?

Gabi – O feedback tem sido positivo. Muitas pessoas mandam mensagens elogiando o projeto e falando sobre terem entrado em contato com informações sobre compositoras assim pela primeira vez e agradecendo. Bons retornos sobre a qualidade dos shows e das artistas. Estamos felizes com o resultado.

Dani – Algumas entrevistadas não se identificavam como compositoras antes do filme. As mulheres historicamente têm esse pudor em defender suas habilidades profissionais. Existe uma modéstia mandatória entre nós, é como se elas se sentissem petulantes ao dizer “eu sou compositora”, por isso, uma das perguntas que eu sempre fazia nas entrevistas era “quando foi que você se reconheceu compositora?” e era sempre um momento incrível de análise até pra elas mesmas, como se caíssem em si.

Eliza – Tem sido lindo ver as mulheres tendo coragem de se dizerem compositoras, de ver uma construção de uma rede mulheres musicistas.

As mudanças no modo de ver a mulher na música tem mudado muito diante da persistência e resistência que todas lutam diariamente, mas precisa mudar ainda mais. Diante dessa afirmação, poderia nos dizer qual seria sua opinião sobre essa frase?

Gabi – Entendo que essa resistência é uma luta contínua e nós colhemos os frutos de batalhas que outras mulheres travaram no passado. Espero que as próximas gerações colham os trabalhos que temos feito para permanecer gerando mudanças e crescimentos nos lugares das mulheres dentro da música brasileira. Gosto de pensar em todo o trabalho a ser feito, mas é sempre bom ter em mente e valorizar também todo o trabalho que você já teve e continua a ter para se manter onde está.

Dani – As mudanças foram muitas, mas não podemos achar que chegamos na tão sonhada equidade de gêneros. Estamos, ao contrário, longe dela. Porém precisamos comemorar e manter o que tantas mulheres nos deram até aqui, e foram tantas vitórias desde o reconhecimentos dos direitos autorais lá atrás com a força da Chiquinha Gonzaga. Mas se a gente não conscientiza e educa os mais jovens sobre as lutas delas, das mulheres que vieram antes de nós, elas ficam esquecidas e daí precisamos lutar tudo de novo, e fica mais difícil avançar. As mulheres têm feito revolução na música há pelo menos dois séculos pelo que sabemos.

Eliza – Penso que precisamos lutar para sempre, não podemos descansar para não retrocedermos. Como podemos constatar nos filmes, algumas mulheres mexeram nas estruturas no passado para que nós possamos estar aqui hoje, e nós, com muito respeito, estamos continuando essa luta, galgando por conquistas e equidade em relação aos homens, para que as futuras gerações possam desfrutar de uma cena musical mais receptiva ainda para mulheres. Meu sonho é que todas as meninas sejam incentivadas a aprenderem um instrumento, a criar, a escrever, a cantar e a fazer o que elas quiserem.

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

Share.
, ,

Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

Leave A Reply

%d blogueiros gostam disto: