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Cantor, compositor e beatmaker, Vito Velasso une indie, música brasileira e timbres eletrônicos em camadas de sentimentos com clima de trilha sonora. E isso fica evidente na forma como o artista escolheu para renascer em um projeto autoral: a cinematográfica trilogia de videoclipes “O amor é um lindo caminho até a morte”, que narra a história de um casal e sua profunda relação com o fim do relacionamento. O projeto antecipa o disco de estreia e ganha seu primeiro capítulo com “Por Engano”, já disponível no YouTube e em todas as plataformas de música digital.

Vito, que além de assinar a produção musical, escreveu o roteiro da série de vídeos, tem uma longa relação com música, tocando bateria desde a infância e se apaixonando por beats. Após passar por projetos solo seminais, bandas e até ser laureado em festivais de composição, ele buscou uma linguagem nova para sua carreira. Confira a entrevista:

Você como artista, acaba por englobar diferentes modalidades artísticas como o canto e o cinema, como foi o caso desse novo projeto. Em “O amor é um lindo caminho até a morte”, a forma como você escolheu para o renascimento desse projeto autoral foi a cinematografia. Como é a sua ligação com a considerada sétima arte?

O que seria da vida humana sem a arte? Considerando o ‘Manifesto das Sete Artes’ como ponto de apoio pra minha resposta, digo que pesquiso, crio e vivo quase que essencialmente dentro do campo da quarta arte – a música.

Toda criação é uma forma de justiça. Talvez seja esse o lema da minha vida artística, já que de cada absurdo vivido, tiro experiências pra compor e, assim criar novas e positivas realidades. Subvertendo rejeições externas, cobranças internas e aflições através da música abraçam o que vivi e exteriorizo com letra e som, os sentimentos.

Sobre a sétima arte é um admirador, espectador assíduo e observador. Desde sempre tive o cinema como referência pra muito do que criava. Muitos dos filmes que assisti transformaram não só minha forma de ver o mundo como também o jeito que me expresso no dia a dia e na minha profissão.

Quando criança imaginava histórias, criando roteiros, imaginando cenas, escrevendo o que me ocorria. Com o tempo, isso se tornou algo frequente. Comecei a escrever esquetes teatrais, experimentando ambientes e situações a partir de um ponto de vista poético e cotidiano.

A experiência que o público pode ter com a mescla da literatura, música, dança, poesia, fotografia e teatro são muito poderosa. Tudo cabe enquanto expressão em obras audiovisuais que transcendem nossos sentidos. Antes da série “O Amor é um Lindo Caminho até a Morte”, produzi expressões artísticas usando música, imagem e poesia, mesmo não tendo experiência direta na área.

“Eu quero falar sobre o fim das coisas”. O tema central do meu disco pedia uma contextualização também visual. A partir de memórias reais, criei o roteiro da série, que foi estreada com a música/capítulo “Por Engano”.

Diego Barreto, meu parceiro na concepção da sequência de clipes, abraçou a ideia e trouxe pro nosso trabalho, a técnica e linguagem cinematográfica, filmando, montando, dirigindo a fotografia e dividindo comigo a direção geral da obra. O segundo capítulo da série estreará dia 07 de maio.

Seguindo uma história que muitas vezes parece já ter se tornado um tema clichê, a sua música conseguiu narrar o fim de um relacionamento de uma forma bastante relevante, até mesmo pelo momento em que as pessoas estão conseguindo se conhecer mais através do isolamento social. O que o levou a querer seguir a linha dessa temática?

Em 2015 compus um disco, em um antigo projeto solo, que englobava o lado leve das descobertas. Esse trabalho conversava diretamente com o recomeço de uma etapa que eu vivia na época, tendo uma textura mais tropical, letras que envolviam o otimismo pra novos caminhos.

Com o passar do tempo, novas perspectivas tomaram conta da minha vida e consequentemente, da minha música. Vi o mundo me apresentar o reflexo do egoísmo humano, o desamor tomar conta de alguns importantes momentos da minha rotina. Isso reverberou diretamente em tudo que compus nos últimos anos.

Como ser totalmente sincero comigo e com quem iria me ouvir? Falando do que vivi e como vivi, sem amarras mercadológicas nem rimas de fácil absorção. Ando cansado da repetição. O mercado musical está saturado e isso vem da descartabilidade dos singles. Não acredito na música que nasce com prazo de validade. Eu quero o invariável. O eterno.

Como falar de um assunto já tão falado, sem que isso soe repetitivo? Apresentando o meu ponto de vista, que assim como o de qualquer pessoa, é íntimo e único. É isso que venho tentando fazer. Trazer meu olhar sobre a falta, a saudade, a escassez e, assim, tocar quem sente o mesmo que eu, de forma sincera e particular.

Uma curiosidade que soubemos aqui é de que além de dar vida ao projeto, você também teve que se virar como produtor e até mesmo roteirista da trilogia de vídeos que fez parte do lançamento do álbum. Como foi o seu processo criativo ao trabalhar na história dos clipes?

Tirar das lembranças a inspiração pra criar uma história é um processo transformador. “O Amor é um Lindo Caminho até a Morte” é um relato sobre o fim de um relacionamento e a morte emocional das pessoas envolvidas na relação.

Todo mundo já vivenciou o fim de algo importante, seja o fim de um namoro ou de uma fase significativa na vida. Falar sobre isso é conversar com quem assiste a série. O processo começou com a escolha das três músicas que fariam parte da sequência de clipes.

Dividi a história em três partes, reservando pra cada uma delas, a música que contribuía com o que seria expressado. Com o tempo, organizamos as ideias e partimos pras filmagens. Com uma equipe reduzida e muito especial, a série ganhou vida.

O que a música significa na sua vida nos tempos de hoje, e como você acredita que elas possam transformar a vida de uma pessoa? A sonoridade é para todos?

Música é minha forma de permanecer. Pra pertencer a mim mesmo e ao mundo, eu crio. A arte nunca foi tão necessária. Vivemos um tempo sombrio, onde a disputa pela vida divide espaço com uma competição egocêntrica que cega o ser humano.

A cura espiritual resiste enquanto há quem crie novas possibilidades através da cultura, da ciência, da educação. Música é pra quem quer ressignificar sentimentos. Por isso ela é pra todos. Pra todos que querem transformar o sentido da vida a partir de novas ideias e percepções.

O projeto antecipa o disco de estreia e ganha seu primeiro capítulo com “Por Engano”. O que podemos esperar desse projeto e quais foram as maiores dificuldades encontradas na elaboração do mesmo?

Venho construindo esse disco há dois anos. A pandemia fez com que tudo ficasse ainda mais desafiador, mas não me fez parar de trabalhar no projeto. Depois de desenvolver o instrumental base (beats, sintetizadores, baixo, efeitos sonoros) das treze músicas que compõem o disco, parti pra composição dos arranjos pra metais, que foram gravados em São Paulo.

Por ser de Minas Gerais, fiz a produção contando com esse intercâmbio entre músicos paulistas e mineiros. Com persistência, fizemos com que isso funcionasse e conseguimos gravar todo o instrumental orgânico.

Esse disco mescla a atmosfera eletrônica das beats urbanas com instrumentos de cordas como guitarra e violão, backing vocals e metais. As treze músicas conversam entre si por abordarem um tema central: O fim das coisas.

Até o fim do ano tentaremos lançar todas e apresentar o formato completo do álbum, que envolve música Indie, Eletrônica, Dark Pop e Alternativa.

Em meio a tantas dificuldades da atualidade, quais são as maiores dificuldades para um artista sobreviver em meio a uma pandemia?

Além dos problemas financeiros pela impossibilidade de monetizar o trabalho com shows, uma grande dificuldade é a emocional. A arte no Brasil não está (e nunca estará) morta, mas está ferida.

Compor, produzir, dar a vida por algo que muitas das vezes será abafado por algum tipo de entretenimento trivial, dói. A dualidade que vivemos por amar nosso ofício e vivermos cansados de participar de uma disputa desleal por espaço no mercado, é dura. Mantenho minha fé na arte e sigo lutando por ela.

Além de cantor, compositor e beatmaker, quem é Vito Velasso?

Eu sou de Minas Gerais, um dos lugares mais incríveis do mundo. Sou de onde o abraço e o café aquecem as pessoas. Falo das dores nas minhas músicas mas vivo pela felicidade de estar próximo de quem amo.

Tento viver da forma mais sincera comigo e com quem passa pela minha vida. Sou da música, do mundo, da magia das coisas. Vejo a vida como a passagem mais incrível e desafiadora que podemos contemplar. Vivo por um propósito. Quero ocupar espaços com minha música. Espaços físicos e também espirituais.

Para o público que está lendo essa entrevista, quais são seus votos de positividades em meio a tanto caos?

Não há outra saída se não a fé na vida e nas pessoas de bem. A polarização política, a falta de diálogo e a disputa por quem grita mais alto vêm adoecendo a população, massacrando nossa democracia. Se não for pelo bem, pela ciência, pela arte e educação, continuaremos convivendo com o ácido da intolerância.

O que desejo é que a gente consiga abrir os olhos e ver que se não for pela união, jamais avançaremos rumo à tão sonhada evolução humana. Andar pra trás não é opção.

Quando opiniões sem fundamento importam mais que fatos verídicos, temos o fanatismo como doença que exala ódio e repressão. Viver pelo bem geral é viver também pelo próprio bem. Uma sociedade existe em equilíbrio quando convivemos com lucidez, flexibilidade e respeito ao próximo.

Acompanhe Vito Velasso no Instagram

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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