Rodrigo Vellozo aprofunda as camadas anti utópicas do seu disco em novo clipe

Tempo de Leitura: 7 Minutos

Muitos afirmam que, após 2020, o mundo como conhecíamos não existe mais. E o que resta, então, em uma nova realidade de tons pós-apocalípticos? A resposta é o que o cantor e compositor Rodrigo Vellozo busca entender em “Não Canto em Vão”, décima faixa do álbum O Mestre-sala da Minha Saudade, lançado em agosto do ano passado.

Escolhida para embalar o novo videoclipe do artista, dirigido por Murilo Alvesso, a canção vaga pelo universo distópico do personagem que dá nome ao disco e se agarra a questionamentos existenciais para encontrar uma forma de se reconhecer e se reconstruir em meio aos caos.

As reflexões referentes ao isolamento social foram palco para a gravação do videoclipe. Registrada no Teatro Oficina, em São Paulo, a produção dialoga com o lugar ausente da classe artística e do vazio dos espaços culturais neste momento de pandemia. Confira a entrevista:

 Murilo Alvesso

Muitos artistas, principalmente os que trabalham com quadros ou no cenário musical, buscam inspiração em acontecimentos que foram vivenciados em suas vidas. O que despertou seu interesse em converter a situação atual do mundo em letra de música?

Rodrigo: No caso deste último álbum, foi uma tragédia pessoal. Comecei a compor e a gravar o disco como reação a uma situação de dor profunda. Por não saber o que fazer, intuí um disco, tentando encontrar algum caminho que fosse para uma sobrevida possível após a perda do meu irmão. Um desafio constante e real. Assim que acabamos de gravar, veio a pandemia e os assuntos das canções ganharam possibilidades de entendimentos múltiplos diante de uma tragédia global, violenta e silenciosa. Essas canções e todos os meus parceiros de trabalho têm sido fundamentais para a minha sobrevivência a essas tristezas todas que se acumulam.

A música “Não Canto em Vão”, lançada recentemente, é a décima faixa do seu novo álbum. Esse projeto será capaz de tomar novos rumos fora do assunto de pandemia ou planeja tomar rumos fora das atualidades sociais dentro do contexto do projeto?

Rodrigo: Acredito que sim. Procuramos construir um repertório que dialogasse com a minha situação de perda, mas que não fosse refém disso. A tentativa de mitificar os personagens e desafios dessa dor é a de coletivizar esses sentimentos, universalizando-os. Esta canção, por exemplo, foi composta com o Cesar Lacerda (que fez a letra) e gravada meses antes de existir a pandemia. Acho que esse repertório sempre fará parte da minha trajetória artística e vital. São canções que cantarei por muito tempo para sobreviver, para chorar a saudade, para celebrar a esperança. Acho que independente do rumo que os próximos projetos e escolhas tomem, eles partirão deste trabalho, deste momento. Para além dessas questões, quero sempre cantar as canções que fiz para o meu irmão, estar um pouquinho mais perto através deste repertório que para mim é eterno.

Dirigido por Murilo Alvesso, o videoclipe gira em torno de uma característica distópica. Como foi a construção do conceito visual do vídeo e que mensagem você pretende passar?

Rodrigo: Esse clipe é quase uma continuação do clipe anterior (da canção “O mestre-sala da minha saudade”, faixa título do álbum). Para mim um desdobramento do personagem. Como se ele caminhasse por esse mundo distópico, que nas artes é praticamente uma realidade mesmo antes do contexto de pandemia, até chegar num teatro. No caso, o Teatro Oficina. Este templo histórico e sagrado do teatro brasileiro. Vazio, desocupado. Desocupado pela necessidade de isolamento e preservação da saúde e da vida, mas também desocupado por uma política constante de desvalorização da educação e da cultura popular brasileira, de seus heróis e da nossa própria história. Enquanto no primeiro clipe, da faixa título, o personagem estava com um figurino luxuoso, saindo de uma possível catarse de carnaval e adentrando em um mundo destruído, em “Não Canto em Vão” o que se vê é a busca de uma possibilidade de existência, mesmo num teatro vazio, numa cidade ensandecida, doente e também esvaziada. Chega a ser assustador pensar que esses assuntos todos surgiram antes da COVID-19.

Um dos pontos que são levantados pela sua música foram as associações com questões existenciais e a trajetória de um ser humano em se auto reconhecer.  A depressão também faz parte dos elementos que compõem a linha temática da música?

Rodrigo: Minha família tem um histórico de depressão. E essas músicas surgiram no momento mais triste e difícil da minha vida. Acho que vida e arte por vezes se misturam e não sabemos mais o que é poesia, construção, e o que é a vida real em si. A concretização de uma manifestação artística, de um modo geral, envolve muitos aspectos técnicos e escolhas estéticas que são feitas e racionalizadas. No entanto, neste caso em específico, muitas dessas escolhas foram fluindo, acontecendo muito naturalmente, como um rio correndo na direção e na intensidade que a correnteza vai ditando. Sem dúvidas foi, para mim, pessoalmente, um processo terapêutico de sobrevivência. Alguns entendimentos são pesados e dolorosos demais para serem vividos sem a poesia e a alegoria. A catarse, promovida pela tentativa de mitificar uma dor pessoal (e consequentemente imortalizar seus atores e personagens), fundamentalmente serve para isso, para que seja possível seguir em frente.

Lançado em fevereiro, a canção tem recebido boas vibrações do público?

Rodrigo: Tem, sim. O álbum como um todo tem me trazido identificação com pessoas que passaram por situações análogas à minha. Para mim, essa é a maior conquista que eu já tive na minha profissão: perceber que não estou sozinho, que há outras famílias enfrentando a mesma dor. O presente maior, que já dá um sentido muito grande para a minha própria existência, é saber que muitas dessas pessoas utilizaram algumas das minhas canções da mesma forma que eu. Saber que a música pode servir a alguém nesse sentido é um tipo de realização realmente indescritível.

Algo que sempre peço aos meus entrevistados como uma forma do público que não o conhece bem é contar um pouco sobre quem é Rodrigo Vellozo?

Rodrigo: Eu sou um artista em construção e desconstrução. Demorei um pouco a aceitar minha vocação, mas com 19 anos entrei na faculdade de música, onde me formei em piano erudito ao mesmo tempo em que já trabalhava com teatro, essa paixão que surgiu de repente, de maneira inusitada e transformou minha vida em todos os sentidos. Depois de vir para São Paulo (eu morava no Rio) e gravar dois discos, me formei como ator e tenho alternando trabalhos na música e no teatro. Como cantor e músico, gravei quatro álbuns, “Samba de Câmara”, “Como é Bonito, Benito”, “Cada Lugar na sua Coisa” e “O mestre-sala da minha saudade”, o primeiro completamente autoral e com canções inéditas.

Filho de Benito Di Paula, você lançou uma canção com seu pai. O que ele acha sobre você seguindo os passos dele? Quão emocionante foi cantar ao lado dele?

Rodrigo: Desde pequeno sou muito próximo ao meu pai. A música sempre nos uniu. Tenho muito orgulho de ter rodado o Brasil todo (e alguns outros países também) com ele fazendo shows. É sempre emocionante dividir a cena com meu pai. A música em mim vem dele. No álbum “O mestre-sala da minha saudade”, gravamos nosso segundo dueto. Foi a primeira vez que meu pai cantou uma canção minha, “Lágrimas no meu sorriso”, uma parceria com o querido amigo e diretor do disco, Romulo Fróes, feita em homenagem ao meu irmão. Virou nosso canto de saudade, uma reza de pai e filho, de pai para filho. A primeira vez que tínhamos gravado juntos foi quando eu tinha quatro anos e gravamos uma versão que meu pai fez para a  “Oração de São Francisco”. No início da minha trajetória, acho que ele se preocupou com a instabilidade da carreira artística e com as dificuldades que esta escolha traz para a sobrevivência cotidiana. Acho que, aos poucos, fui conquistando o seu orgulho e sua admiração.

Além da canção atual, existe mais algum plano para a carreira em 2021 ou pretende tirar algum tempo de descanso?

Rodrigo: Acho que quase nenhum artista está pensando em descanso numa época em que são tão escassas as possibilidades de trabalho e de subsistência. Tenho feito lives com meu pai enquanto divulgo meu último álbum (recém-lançado em vinil) e, em paralelo, estou programando uma série de projetos para comemorar os 80 anos do meu pai, que ele completa no fim do ano. 

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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