Porque é tão difícil sair de um relacionamento abusivo?

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Estudos relatam que 3 a cada 5 mulheres já viveram um relacionamento abusivo, mas não é só na relação homem mulher que isso acontece. O abuso pode ocorrer de diversas formas: de pai pra filha, de filho pra pai, de filha pra mãe, entre casais homoafetivos, entre outros.

Conversamos com a psiquiatra e psicanalista Dra Aline Machado Oliveira sobre o assunto. Confira a entrevista:

É muito comum falarmos sobre relacionamento abusivo entre um casal, mas também existem os relacionamentos tóxicos em amizade ou na própria família. Como identificar esse tipo de relação no geral?

Relacionamento tóxico é todo aquele em que existe o desrespeito à individualidade do outro. Limites são inexistentes e um indivíduo impõe ao outro as suas verdades e vontades. Este tipo de relação pode estar presente entre amigos, colegas de trabalho, chefe e funcionário, pais e filhos, marido e esposa, etc.

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Quando o relacionamento se torna tóxico, como perceber isso e romper o ciclo de violência? 

Sempre que alguém sentir-se menosprezado ou desconsiderado em uma relação, pode estar vivenciando um relacionamento tóxico ou abusivo. Por exemplo, um funcionário que perceba que seu chefe ultrapassou os limites éticos da relação, que sinta que seu chefe o está desrespeitando, abusando e indo além dos limites aceitáveis entre um chefe e seu funcionário. Isto ocorre, por exemplo, em situações em que o chefe faz insinuações de cunho sexual para o funcionário, em que exige-lhe horas extras de trabalho sem uma combinação prévia e sem o devido pagamento ou que faça gozações ou brincadeiras que constranjam o funcionário e que gerem mal-estar frequente.

Romper o ciclo de violência ou desrespeito pode ser bastante complicado quando esta ocorrer no ambiente de trabalho. É preciso que a vítima, ao identificar a situação, não se cale e peça ajuda, seja no setor de recursos humanos da empresa, ao psicólogo da empresa ou ainda no seu sindicato.

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As mulheres que estão em casa com agressores na pandemia estão encurraladas. Como proceder uma denúncia contra o agressor no confinamento?

Quando esta ocorrer em um relacionamento amoroso, aquele que está sendo desrespeitado deve deixar claro ao outro que esta situação é insustentável, e que o relacionamento não se manterá se o desrespeito ou violência se mantiver. Dependendo da gravidade do caso, pode ser necessário pedir ajuda na delegacia ou na assistência social do município.

As mulheres em situação de violência doméstica podem ligar para o 180 ( Central de Atendimento À Mulher ). Elas também podem procurar ajuda na Delegacia da Mulher, no CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) ou procurar um advogado para receber orientações com relação aos seus direitos e quais órgãos podem protegê-las. Se estiverem precisando de alguém que as ouça sem julgamentos até que decidam o que fazer, podem procurar o atendimento de um psicólogo ou psiquiatra.

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Por que é tão difícil identificar um relacionamento abusivo e sair dele?

É difícil identificar um relacionamento abusivo por causa das nossas defesas inconscientes, que trabalham para que o nosso sofrimento mantenha-se em níveis toleráveis. Por exemplo, digamos que uma mulher sofre agressões físicas do marido com certa regularidade. Para suportar a dor de ser agredida por ele, ela engana-se e diz para si mesma que o marido “não é tão ruim assim, só bateu em mim desta vez, porque estava nervoso, mas isto nunca mais irá acontecer“. Então a pessoa mente para ela mesma, de maneira inconsciente e acredita na própria mentira. O primeiro passo para resolver qualquer problema é reconhecer o problema e a maioria das pessoas que sofre relacionamentos abusivos ou tóxicos não os reconhece assim.

Como fica psicologicamente a pessoa que passa muito tempo em um relacionamento abusivo? E quais as indicações de ajuda que se deve procurar? É possível que a pessoa que esteja passando por um relacionamento assim não perceba o que está acontecendo e ainda ache errado os outros questionarem? Por que isso acontece?

A autoestima, a autoconfiança e a autoimagem da pessoa que sofre um relacionamento abusivo por muito tempo, ficam seriamente abaladas. O abusador constrói grades invisíveis que prendem a vítima. É comum que esta sinta-se culpada pelos abusos que sofre, como se estes fossem consequência dos seus próprios atos. Desta forma, a vítima aceita os abusos por anos, sem dar-se conta que é possível sair desta situação. Pode ser necessário que um amigo ou profissional clarifique os acontecimentos, para que o prejudicado perceba que está sofrendo um relacionamento tóxico e desrespeitoso. A ajuda pode ser buscada junto ao médico, ao psicólogo ou ao assistente social.

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A violência é um padrão aprendido ou influenciado pela educação? A pessoa que causa abuso psicológico sabe o que faz?

A violência pode ser aprendida em casa, na infância. O abusador sabe que está sendo tóxico e desrespeitoso, mas caracteristicamente é alguém que não sente empatia pela dor do outro e que prioriza apenas seus próprios interesses e seu bem-estar.

Quais são as frases mais comuns usadas por um abusador? 

São frases comuns usadas por um abusador: ”Olha o que você me fez fazer!”; ”Você só faz merda mesmo!” Ou seja, o abusador usa frases depreciativas e sempre culpa a vítima pelos seus atos. Ele também costuma dizer que, se a vítima pedir ajuda, ninguém acreditará nela.

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Em relação a filhos que se tornam abusadores com os pais, o que você acredita que leva a essa situação?

O egoísmo e a frieza que caracterizam nossos relacionamentos nos dias atuais. Hoje somos criados e educados para produzir, conquistar o mundo e competirmos uns com os outros, Pouco tempo é dedicado para ensinar as crianças sobre os valores familiares e a importância de cuidarmos uns dos outros .

Para que os leitores a conheçam, nos conte um pouco quem é a Dra Aline Machado Oliveira.

Sou médica e psiquiatra formada pela Universidade Federal de Santa Maria. Trabalho como psiquiatra e psicoterapeuta em Lajeado, no Rio Grande do Sul e com consultas online para todo o Brasil. Estudo Psicanálise na Escola Paulista de Psicanálise.

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