Mentora de carreira, Lucedile Antunes fala sobre tendências do mercado no pós pandemia

Tempo de Leitura: 11 Minutos

Lucedile Antunes é coach, mentora de carreira, consultora organizacional, especialista em Soft Skills. É coordenadora editorial do livro “Soft Skills: competências essenciais para os novos tempos“, que saiu na lista dos mais vendidos da Veja e Publishnews em dezembro de 2020. Lucedile sempre participa de matérias nas mídias Exame, Você S/ e Valor sobre carreira, soft skills e comportamento corporativo.

Conversamos com a especialista sobre liderança, o novo normal, tendências e mais. Confira a entrevista:

Por conta da pandemia, muitas empresas estão optando pelo uso do home office para poder continuar o trabalho. Algo interessante é que esse novo modo de trabalhar tem crescido tanto que já é considerado como um dos atributos que irão continuar no pós-pandemia. Na sua visão, o uso desse formato tem sido realmente benéfico para as empresas? Além obviamente do uso do próprio home office, quais são as principais tendências no mercado assim que a pandemia se extinguir?

Sim, do ponto de vista de custo, sem dúvida está sendo muito benéfico. Do ponto de vista de produtividade, as empresas estão se adaptando a esse modelo, com uso principalmente de aplicativos, de gestão de tempo, gestão de projetos. A vantagem do home office para a empresa é a redução de custos. Para o colaborador, é poder ter o contato mais próximo com a família; para quem tem filhos, por exemplo, tem a oportunidade de estar mais presente na vida deles. Entretanto, o home office é um modelo que faz com que o colaborador fique muito sozinho e essa é a parte negativa, porque somos seres relacionais e precisamos interagir com outras pessoas e o fato de não ter essa interação prejudica um pouco. Na minha visão, o modelo que vai se sustentar é o híbrido: uma parte home office e outra parte presencial. É isso que acredito que vai acontecer pós-pandemia.

A movimentação das mulheres frente às empresas tem crescido. Ao que se dá esse crescimento e o que é preciso ser feito para que mais mulheres possam estar em uma posição como essas?

Na minha visão, as mulheres têm conquistado mais seu espaço por terem algumas soft skills (habilidade comportamentais), que são natas da mulher, como o cuidar de pessoas. Hoje se fala muito em liderança humanizada, ou seja, ter aquele olhar que vai além para cada colaborador, entender, ser empático, ter uma escuta empática. A empatia é uma soft skill importante. Não estou generalizando, dizendo que homens não têm essa soft skill, mas a mulher já traz isso pela sua natureza feminina do cuidar. E os líderes têm que ter esse olhar de cuidar dos colaboradores. O papel de um líder, quando ele assume uma posição de liderança, é muito mais de cuidar, de observar o talento de cada um, de colocar a peça certa no lugar certo, de desenvolver, de ensinar e de dar feedbacks.
O que é preciso ser feito para estar em uma posição como essas é ter um olhar e mente mais abertos. Muitos diretores e CEOs de empresas muitas vezes não têm esse olhar mais apurado para os talentos que as mulheres trazem. Existem algumas empresas em que a cultura é muito masculina e isso faz com que não se desenvolva esse olhar para a oportunidade de que o feminino pode agregar de valor. Então existe um fator cultural, que dependendo da origem e da cultura da empresa isso já é meio enraizado. Eu acho que a grande sacada é desenvolver esse olhar para o potencial que as mulheres podem trazer. Esse é o passo que tem que ser dado: romper certas culturas.

O líder antes e depois da pandemia teve alguma modificação? Se sim, quais foram elas?

Sim, muita modificação. A primeira grande característica do líder em um mundo em transformação é ter a mente de iniciante, ou seja, questionar o status quo das coisas. Como exemplo, cito o inventor da Polaroid que, em 1958, estava um dia com sua filha no escritório e tirou uma foto com ela e a menina perguntou “papai eu queria ver a foto agora, não é possível?”, ou seja, ele considerou uma pergunta que qualquer criança faria, tomou a decisão com base em uma informação incerta, mas com esse radar para o futuro, sempre desafiando o status quo e criou a polaroide insantanea. A naturalidade de hoje pode ser o absurdo amanhã. A segunda característica é ser uma pessoa que tem flexibilidade cognitiva, ou seja, que aprende de tudo (Lifelong learning) e se desafia com novos conhecimentos, porque hoje o seu concorrente pode não ser uma empresa do mesmo segmento, pode ser uma empresa de segmento diferente e ele se torna o seu maior concorrente. O importante é que você conheça de tudo e todos os dias aprenda algo. A terceira característica é que os líderes têm que trabalhar por um propósito; trabalhar pelo PORQUE a empresa faz o que faz e não O QUE a empresa faz o que faz. Um exemplo disso é a Embraer, que tem como propósito levar as pessoas do ponto A ao ponto B. Então todos da empresa são apaixonados pelo porque e não pelo “o que”que é fabricar a aeronaves. É muito importante que os líderes do mundo em transformação trabalhem por um propósito e leve todo time para isso e, principalmente, eles têm que ser bons em resolver a “dor” do cliente ao invés de tentar ficar bom no que faz. A quarta característica é o líder focar na formação de um time multidisciplinar, porque a diversidade de conhecimento estimula as ideias e a ação. A quinta característica é desenvolver o pensamento de prototipação, ou seja, no passado todos nós aprendemos que errar era algo negativo, hoje devemos entender que só erra quem faz, ou seja, o líder tem que apoiar a cultura da experimentação para que a transformação aconteça. Então tem uma ideia? Acredita que ela seja muito boa? Analise o tamanho da perda e testa. Mas tem que criar esse clima para que as pessoas se sintam à vontade para prototipar, porque se elas sentirem que podem ser punidas pelo erro elas não vão contribuir e é aí que muitas coisas ficam para “debaixo do tapete”.

O cargo de liderança em uma organização passa sempre por responsabilidades e demandas. Em sua opinião, qual seria a melhor estratégia para se tornar um bom líder e ser respeitado no seu ambiente de trabalho?

Para que você se torne um bom líder é preciso conquistar essa admiração. A sua liderança tem que ser pelo exemplo e não pela imposição. Líderes devem ser reconhecidos como uma pessoa que assume responsabilidade, que acompanha e desenvolve seu time, que orienta, que sabe dar feedbacks, diz “nós” independentemente de ter sucesso ou fracasso (“nós acertamos” ou “nós erramos”) e que dá um norte. A característica de um líder é muito diferente de um chefe. O chefe fiscaliza, diz “eu”, ele manda e as pessoas fazem porque recebeu uma ordem e não porque ele é um exemplo, que inspira motivação.

O que significa um ambiente favorável para mulheres trabalharem?

Ter um ambiente favorável para as mulheres trabalhares significa o respeito, e os direitos iguais, é considerar cargos e oportunidades para que elas cresceram e se desenvolvam. Uma vez fiz auditoria em uma indústria japonesa e só tinha uma mulher em cargo de liderança, que levou muito anos para conseguir. Também quando trabalhava como auditora, por muito tempo eu era a única mulher. Então, realmente é ter uma mente aberta para isso, para as competências das mulheres que estão na organização, o que elas podem contribuir, quais são os potenciais delas. Tem muito a ver em trabalhar com a cultura, que vem lá de cima, porque se lá de cima acreditar que mulher está em segundo plano isso vai permear em todos os níveis da organização, além do respeito, de regras, de ética, de não permitir assédio, de ter um canal, por exemplo, de ouvidoria para questões como essas etc.

African American businesswoman standing in meeting room, pointing to document and explaining business results. Business team are looking at her and listening with attention. Working concept

Todos os anos, se torna inevitável dizer que o mercado de trabalho vem se expandindo cada vez mais, ainda por cima como tratamos a respeito da questão científica e terapêutica. Nos últimos tempos, a profissão do coach teve um grande aumento em seu reconhecimento, porém gerou bastantes discursos sobre sua aplicação, o que gerou uma divisão de opiniões positivas e negativas. Acredita que chegou mesmo a haver uma certa crítica sobre esse trabalho? O que pode ter gerado?

Como toda profissão, existem bons profissionais e profissionais não tão qualificados. O que aconteceu é que muitas pessoas que perderam emprego, assim como teve o “boom” de corretores, acabaram fazendo uma formação em coaching. O que acontece é que existem escolas e escolas, ou seja, escolas que têm muita credibilidade com cursos reconhecidos pelo ICF – International Coaching Federation, que é a principal organização global de coaching e escolas que não tem esse reconhecimento. É por isso que se gerou esse desconforto, pegando o meu exemplo, fiz uma escola de primeira linha, um curso credenciado pelo ICF, ou seja, sou uma coach credenciada por essa organização, que tem como missão assegurar que todos os coaches tenham um nível mínimo e padrões éticos. Temos que passar por provas e avaliações, comprovar horas de atendimento, temos que submeter sessões de atendimento para avaliação dos acessors. Existem sim coaches sérios e organizações que se preocupam com essa fiscalização. A questão é que isso tem que ser mais regulamentado para que seja mais conhecido pelas pessoas. E o que acabou gerando todo esse desconforto nos últimos tempos da profissão é porque tem muitas pessoas formadas com curso de final de semana e que se tornou um coach e, na verdade, não é assim, é um trabalho muito sério, de muita responsabilidade. O principal objetivo do processo de coaching é levar o nosso coachee (pessoa que passa pelo processo de coaching) a ir para um novo estágio de consciência sobre os seus comportamentos atuais, porque dessa forma o coachee escolhe novas estratégias para agir e para ter resultados diferentes. Albert Einstein sabiamente diz: “Insanidade é querer resultados diferentes fazendo da mesma forma”.

O seu trabalho como coordenadora editorial do livro “Soft Skills: competências essenciais para os novos tempos” provocou um enorme sucesso na literatura de 2020, debutando inclusive nas principais listas de best-sellers promovidas pela imprensa brasileira. Como classifica a importância da participação desse projeto em sua jornada na consultoria organizacional? Qual a avaliação diagnóstica da convivência da geração atual em relação ao soft skills?

O livro representa um marco muito importante na minha jornada profissional, porque no meu trabalho de consultoria e mentoria nas empresas eu notava já há muitos anos essa “dor” muito latente, que segundo pesquisas mundiais, 91% das pessoas serem demitidas por questões comportamentais. Como eu presenciava isso no dia a dia, vendo pessoas muito boas tecnicamente sendo desligadas por questões como por exemplo: não ter empatia, não saber vender as ideias, com dificuldades para se expressar, ou vender suas idéias, enfim, eu resolvi criar o livro que foi reconhecido como best-seller porque sabia que as pessoas careciam desse conhecimento.

Elas estão começando a perceber o quanto trabalhar as soft skills é importante. Eu acredito que na geração atual falta muito a resiliência, que é a capacidade das pessoas em lidar com os problemas, adaptar às mudanças, superar obstáculos e resistir às situações de pressão e estresse. Essa geração atual cria expectativas altas para um curto espaço de tempo, como por exemplo virar CEO com 24 anos, só que talvez falta para essas pessoas, compreender que para chegar a esse cargo, não tem como pular etapas, é preciso passar por uma certa maturidade, saber liderar times, ter empatia, trabalhar em equipe, ter persuasão e ter uma comunicação assertiva (um dos temas mais presentes em meus trabalhos de coach). É como você estar no pré-primário e querer ir direto para o MBA. Impossível certo? É preciso passar por todas as etapas o fundamental I, fundamental II, ensino médio, graduação, pós-graduação e o MBA. Falta para essa geração compreender que é necessário passar por todas essas fases. Portanto a resiliência é na minha visão, a soft skill mais importante para esta nova geração.

Qual seria o principal conselho para quem quer empreender seu próprio negócio no cenário atual?

É fazer uma boa análise de risco. Primeiro recomendo fazer uma análise SWOT para identificar os pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças, em relação ao mercado e concorrência. Feita essa análise, a minha segunda sugestão é identificar as partes interessadas desse negócio (acionistas, clientes, colaboradores, fornecedores etc.) e o que cada um espera.

Se você tiver sócio é muito importante esse alinhamento para definir o que cada um espera visando evitar frustrações futuras. Depois é preciso definir o direcionamento estratégico, ou seja, para onde você vai e, para finalizar esse trabalho, identificar os riscos. Quais são os riscos de ir e de não ir, e as ações necessárias para mitigar ou eliminar. Outro ponto fundamental é construir a visão, missão e valores.

Você acredita que o trabalho remoto pode virar uma tendência pós pandemia, e se isso acontecer, como as empresas orquestraram as funções à distância para cada funcionário?

As empresas poderiam orquestrar com o uso de aplicativos, como o Trello por exemplo, para gerenciar as atividades. Outro ponto que recomendo é ter encontros periódicos on-line ou sempre que possível no modelo híbrido, para ter esse contato. Enquanto a pandemia não acabar, acredito que ter encontros on-line para ouvir as “dores” de cada colaborador, quais são as dificuldades que estão passando, não falar especificamente de um projeto, mas fazer um balanço geral do departamento; ouvir as sugestões de melhoria, ou seja, criar este espaço de escuta empática. O líder tem muito esse papel acolhedor principalmente nesse momento como o que vivemos atualmente. Muitas empresas estão investindo em saúde mental.

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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