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O tema ESG, surgiu alguns anos atrás e vem chamando muita atenção, principalmente agora em meio a pandemia, que muitas questões sociais ganharam mais evidência.

A sigla em inglês, significa Environmental, Social and Governance, e está ligada a assuntos sustentáveis, e a outras causas como por exemplo: respeito aos direitos trabalhistas, humanos, igualdade de gênero, raça e a medidas que evitam a corrupção.

O gestor Luiz Otavio Goi Jr. especializado em sustentabilidade com dois MBAs na área, comenta que o caminho para que uma empresa se torne 100% sustentável é longo, mas se for iniciado o quanto antes, o impacto de redução de lixo, poluição e desperdício de materiais será enorme. Ainda segundo Luiz, o ESG também é uma forma de mostrar a um investidor o quanto a empresa na qual ele está investindo está sólida ou não, para evitar o risco de uma flutuação desastrosa de suas ações no mercado.

Existe algum erro comum que uma empresa pode cometer quando o assunto é ESG?

Sim, inclusive posso dizer que existem vários, mas a maioria deles deriva de um erro principal. Algumas empresas vendo que se trata de uma tendência e também por serem cobradas por seus stakeholders acabam por decidir implementar programas ESG de forma superficial e as vezes até amadora. Essa ansiedade por fazer, ou até mesmo o “Fazer só pra ter” são erros comuns e que desencadeiam diversos problemas futuros como uma gestão desorganizada, problemas graves embaixo dos tapetes, auditorias com resultados fictícios e ainda falta de mapeamento de riscos.

Apesar do aumento no caso de empresas que adotam medidas para reduzir sua pegada de carbono, muitas delas acabam não seguindo o caminho corretamente. Para que haja uma vigilância, o que é preciso levar em conta para que saiba que tudo está sendo seguido em conformidade?

O processo de gestão de CO2 já é bem maduro e entendo que esteja claramente definido. As empresas que realizam a gestão da sua pegada de carbono precisam antes de tudo inventarias seus GEE (Gases de efeito estufa) anualmente usando uma metodologia reconhecida (a mais comum é a GHG protocol). Com esse inventário em mãos, a empresa verifica suas principais fontes dos escopos 1, 2 e 3 e a partir daí, passam a criar planos de ação para melhoria. Para esses planos existem diversas formas onde o uso de energia limpa, uso de frotas elétricas, aumento de transportes coletivos e incentivo a redução de CO2 são as atividades mais comuns, porém ultimamente tenho percebido uma grande movimentação das empresas com a estratégia de compensar suas emissões através do plantio de florestas. Isso é muito válido, mas requer atenção, pois por mais que você compense suas emissões os gases tóxicos continuam sendo gerados, criando uma falsa sensação de solução do problema.

Apesar de já existir há alguns anos atrás, o termo ESG cresceu mais durante a pandemia. Para você, o que levou a esse crescimento pela procura por questões sociais?

 O termo ESG foi estabelecido em 2004 e só foi reconhecido como “Comum” em meados de 2019. A pandemia foi um grande impulsionador do tema até mesmo pelo fato de termos uma maior necessidade de envolvimento social como um todo por parte das empresas, onde um problema global impactou a todos e as empresas entenderam que caso não suportassem o meio onde estão inseridas, o retorno a suas atividades iria demorar mais. Mas entendo eu (agora olhando principalmente para o Brasil) que o crescimento pela procura do tema começou mesmo durante as ultimas ocorrências de desastres ambientais envolvendo algumas empresas e até mesmo escândalos de corrupção, visto que o objetivo do ESG no mercado de ações é ter subsídios para minimizar os riscos desse tipo nos seus investimentos.

Quais é a importância de uma empresa seguir os 3 passos do ESG — Meio Ambiente, Responsabilidade Social e Governança Corporativa?

 O mais importante de tudo, entendo que as empresas devem olhar para o ESG como uma oportunidade nesse momento. Estar listada e inserida num grupo seleto de empresas que tem medidas voltadas ao assunto é diferencial competitivo. Olhando para o médio prazo, entendo que as empresas que de fato seguem à risca a agenda ESG, conseguem levantar seus impactos e riscos, podendo mitigá-los antes que ocorram evitando escândalos e desastres. Agora falando em longo prazo, entendo que a somatória dos acordos globais, da competitividade e da implementação de políticas compulsórias reguladas pelo estado, a empresa que não estiver alinhada às praticas dos três pilares será no mínimo, evitada pelos acionistas e consumidores, além do risco de não poder operar.

Gestor empresarial há mais de 15 anos você desempenha um papel importante no meio corporativo. Em seus anos de vivência na área, quais foram as maiores mudanças no seu início para a atualidade?

 Creio que as mudanças mais importantes que vivenciei foi a visão de meio ambiente para a sustentabilidade. Seja impactado pelos tratados e acordo que desde o RIO 92 vem instigando governos a pensar diferente ou até mesmo pela transversalidade do tema nos ensinos regulares no Brasil, eu vejo que o tema cresceu muito em importância e entendimento. Ao mesmo tempo, percebo que a morosidade dos processos nacionais interferiu diretamente nessa evolução, que poderia ter sido muito maior. Entendo que a adequação das empresas é demorada e diante da carga tributária nacional, fica difícil a implementação de projetos novos, porém um pouco mais de velocidade com suporte governamental poderia ter ajudado a desenvolver mais o tema. Com a comunicação cada vez mais rápida e com o consumidor da geração atual, entendo que teremos agora mais um esforço para impulsionar o tema e creio que a evolução ambiental que vi ocorrer nos últimos 15 anos provavelmente vai acontecer de forma muito mais rápida e assertiva.

Quais são os atributos que os investidores levam em conta para analisar se uma empresa é ou não sólida?

Dentro do Brasil, a viabilidade financeira ainda é o principal atributo. Por mais que tenhamos aprendido em um passado não muito distante que outros problemas podem impactar diretamente no resultado, o nosso pais ainda está engatinhando nessa avaliação mais rigorosa. Olhando para outros países mais evoluídos (como EUA e Europa), já temos investidores que não colocam o seu dinheiro em nenhuma empresa que não esteja validada com uma serie de itens ligados ao ESG como por exemplo, com compromissos firmados sobre diversidade e inclusão, compromisso de redução ou neutralização do CO2 de suas operações, ou até mesmo que tenham políticas de governança corporativa mais sólidas. O Brasil está chegando vagarosamente a esse patamar e entendo que a atenção chamada ao ESG vai fazer com que em pouco tempo esse investidor olhe para os compromissos firmados aqui também.

Existe algum tipo de risco caso uma empresa opte por não seguir os passos do ESG?

 Nesse momento, o risco do “Cancelamento” é um dos mais iminentes. Empresas que não tenham planos de governança corporativa claros, podem em algum momento cometer deslizes pela sua falta de tato aos riscos existentes e com isso sofrer a pressão da sociedade. Além disso, empresas que tem investidores de outros países, já estão passando por avaliações em ESG e provavelmente aquelas que não se adequarem rapidamente, deixarão de ser fonte de investimento.

Como uma empresa sabe se realmente suas informações estão sendo transmitidas de forma positiva para os investidores e população em geral?

 Uma das principais fontes de informação por parte de uma empresa aos seus investidores é o Relatório de Sustentabilidade. Nesse documento a empresa abrange todos os seus planos e temas relacionados no ano especificado quanto as atividades ambientais, sociais e econômicas. Alem disso, a existência de um canal aberto para ouvir seus stakeholders é um caminho proativo de entender o que a comunidade e investidores estão pensando e poder retornar com uma comunicação mais assertiva, visto que através desse contato é desenvolvida a materialidade dos temas utilizados no relatório de sustentabilidade e com isso o retorno com os compromissos fazem evoluir a relação entre as partes.

Em uma afirmação você comentou que “precisamos criar um mundo corporativo menos crítico e mais colaborativo”. Em sua visão, como isso poderia se tornar real?

Entendo que hoje em dia o senso crítico tomou proporção negativa. Estamos com muitas informações superficiais sobre diversos e temas e com isso, o mundo corporativo passa a se transformar em um campo de batalha. Para mudar essa visão as empresas precisam passar a alinhar suas políticas através de metas participativas, formando assim agregados em busca de um mesmo propósito. Essa dificuldades é existente na política, nas empresas e até mesmo nas famílias hoje em dia, porque a polarização de conceitos tomou uma proporção jamais vista. Para mudar isso, precisam ser estabelecidos projetos não concorrentes em todas as esferas, para só assim direcionar todos a um mesmo caminho de colaboração, onde sem isso, passaremos mais tempo reconstruído do que construindo.

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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