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O equilíbrio alimentar tem se tornado cada vez mais difícil e mais uma vez nos vemos às voltas com a correria do dia a dia, as preocupações diárias, as cobranças no meio profissional, na vida doméstica e na vida social; isso porque estamos inseridos em um mundo cada vez mais mergulhado no estresse, ainda mais em tempos de pandemia, onde somos tomados pelo medo e pelas incertezas do futuro.

E contaminados com todos esses fatores, muitos de nós nos tornamos vítimas da depressão e da ansiedade. Então é natural que muitos de nós vá buscar uma segurança, uma válvula de escape, na comida fora de horário, de maneira desproporcional e que na maioria das vezes não chega sequer a ser minimamente saudável, e o pior, isso vai se tornando um hábito.

Em entrevista aos jornalistas Luca Moreira e Andrezza Barros, a Dra. Bruna Marisa, membro da SBEM, pós-graduada em endocrinologia e medicina ortomolecular, com diversos cursos na área da medicina esportiva e especialista em emagrecimento, trouxe toda sua bagagem de conhecimento e compartilhou um pouco mais com nosso site informações e curiosidades úteis á respeito da cirurgia bariátrica, que é às vezes procurada indevidamente por pacientes que nem sempre estão por dentro de todos os detalhes da famosa cirurgia de redução de estômago. Venha conferir!

Perder peso de forma natural é muito difícil na maioria das vezes, para isso existem as cirurgias bariátricas, mas existem seus riscos, quais são eles?

Dra. Bruna: Perder peso de forma natural não é realmente o caminho mais fácil, mas é o caminho mais seguro e saudável. Então, muita gente tem optado pela cirurgia bariátrica por achar esse o caminho mais fácil, mas falo com eles que a gente precisa tentar de tudo antes, porque, lógico, uma cirurgia bariátrica tem seus riscos e tem suas complicações. Dependendo do tipo de cirurgia, quanto mais órgãos são alterados, maior é o risco, então, as cirurgias de antigamente que alteravam estômago e intestino realmente tinham bem mais complicações do que as que a gente têm indicado hoje.

Brinco que a gente precisa melhorar a mente primeiro, temos que entender o que é o comportamento magro em relação ao alimento, mudar o estilo de vida e de dieta, diminuir o consumo de carboidratos, aumentar o consumo de proteínas. Tudo isso vai fazer parte de um emagrecimento saudável e duradouro.

Os maiores riscos da cirurgia bariátrica é primeiro de complicações durante o procedimento, então, quanto mais peso o paciente tem, mais inflamado ele está e maior é o risco durante o procedimento de resposta inflamatória sistêmica. Mesmo no pós-operatório, esse paciente pode evoluir mal por conta de inflamação, e isso ficou muito claro para gente na pandemia do COVID-19. Então, os pacientes que tinham uma pior evolução normalmente eram os pacientes mais inflamados, que eram diabéticos, obesos, … Fora que dependendo do tipo de cirurgia bariátrica, vão ficar deficiências nutricionais para o resto da vida, então, o paciente não consegue absorver vários tipos de vitaminas minerais, e a gente vai ter que estar sempre em acompanhamento olhando isso. Eu falo que a gente troca uma doença, que é a obesidade por outras, que é desnutrição, carências e outras compulsões se essa mente não for tratada.

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Como funciona uma cirurgia bariátrica? Quem pode ou não fazer?

Dra. Bruna: A cirurgia bariátrica funciona mais ou menos cortando o estômago, resumindo é isso. Então, vai lá e corta um pedaço do estômago. Existem algumas técnicas que interferem com o intestino, com derivação, e essas são mais complicadas, mas a maioria delas vai lá e corta o estômago e a pessoa não consegue mais ingerir grandes quantidades de alimento ao mesmo tempo.

Quem pode fazer geralmente são os pacientes que têm o IMC mais alto com comorbidades. Vou explicar melhor o que são esses comorbidades: o paciente que tem uma obesidade severa, e além disso tem problemas no joelho ou hipertensão, diabetes, … essas são as comorbidades que tem indicações maiores, e a gente pede que ele tenha tentado de tudo por pelo menos dois anos com equipe multidisciplinar que é o médico, nutricionista, o psicólogo, para aí sim falar que ele está apto a fazer uma cirurgia bariátrica.

Um estudo traz evidências de que há um risco elevado de pessoas que passaram pela cirurgia bariátrica tornarem-se dependentes de álcool. O que leva a esses casos?

Dra. Bruna: O que leva aos pacientes a transformar o vício pela comida em vício pela bebida ou drogas, compras, enfim, é porque esse paciente normalmente não sabe gerir bem suas emoções. Quando ele não sabe gerir bem as emoções, ele desconta todas as frustrações na comida. O nosso cérebro sempre pede por recompensas, então, ele vai sempre para o alimento em busca da recompensa. Depois da cirurgia bariátrica em que o estômago dele foi cortado, ele não consegue mais comer grandes quantidades de alimento, e é aí que esse cérebro continua pedindo recompensa, por que ele não foi tratado. Isso acontece porque o paciente não aprendeu a lidar com as emoções, não fez uma reprogramação mental de como era a relação dele na infância com o alimento, com o peso, … Esse paciente vai continuar buscando uma recompensa na comida, vai passar para bebida. Enfim, por isso é tão importante acompanhamento psicológico. A gente prepara esse paciente para o sucesso na cirurgia bariátrica.

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É preciso tratar das compulsões alimentares de um indivíduo antes mesmo dele realizar a cirurgia. Quais são os melhores métodos de cuidar dessa dependência com o alimento?

Dra. Bruna: Os melhores métodos para tratar uma compulsão alimentar. Eu tenho a tríade de que é muito importante, então, ele precisa de um psicólogo para fazer uma terapia, e em alguns casos precisa de medicamento. O paciente vai precisar de um médico que pode ser um psiquiatra para tratar essa ansiedade exacerbada ou essa fuga para comida. O ideal é um profissional que vá orientar o paciente com relação a alimentação, então, um nutricionista é fundamental nesse processo, um médico que acompanhe os hormônios, as carências nutricionais e tudo. O paciente precisa realmente aprender a gerir as emoções antes, e esse é um dos princípios do curso que eu estou fazendo, que são “Os Segredos da Mente Magra”. Vamos ensinar as pessoas a lidar melhor com o alimento, entender melhor quais são os bons e os ruins e aprender a fazer escolhas mais conscientes, comer por razão e não mais por emoção e desvendar os altos sabotadores. Então, a gente vai tentar transformar essa mente aí numa mente magra.

Muitas pessoas realmente enxergam a cirurgia bariátrica como um verdadeiro milagre para suas vidas, porém, se as pessoas passarem a enxergar esse procedimento como uma alternativa para a prática de exercícios e outras maneiras de emagrecer, isso pode se tornar prejudicial à saúde dos pacientes?

Dra. Bruna: Muitas pessoas enxergam a cirurgia bariátrica como um verdadeiro milagre nas suas vidas e que vai resolver todos os seus problemas. Gente, isso não vai acontecer! E além disso, vai causar uma frustração muito grande, porque para quem é obeso, a cirurgia bariátrica vai resolver só um problema que é a obesidade, o resto todo, seu relacionamento com a família, casamento e filhos, o resto todo vai continuar normal, não vai mudar nada. Então, as pessoas têm que entender que, na minha opinião, a cirurgia bariátrica é o último dos últimos recursos. A gente vai tentar de tudo antes, seja dietas, mudança de mentalidade, e o que tiver de opção. Eu não sou contra cirurgia bariátrica, mas eu acho que tem uns casos específicos, tem um certo limite de peso ao qual se chega nele e fica muito mais difícil de se conseguir sozinho. Eu trabalho numa clínica de cirurgia bariátrica preparando os pacientes para o procedimento, então, a minha ideia é fazer eles emagrecerem 10Kg antes de ir para o procedimento para diminuir o risco durante a cirurgia e para mudar a mente deles antes da cirurgia porque aí é sucesso garantido.

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Quais são os principais erros das pessoas ao buscarem a cirurgia bariátrica, e quais são os mitos que elas apresentam a respeito do procedimento?

Dra. Bruna: O maior erro de quem procura uma cirurgia bariátrica é acreditar em milagre e que aquilo vai resolver todos os seus problemas, por isso, a gente está tendo um alto índice de reganho de peso depois da cirurgia. As pessoas acham que realmente vão operar e não vão precisar fazer mais nada para mudar a alimentação, não precisa mudar a mente, não precisa fazer exercícios, … Esse é o maior erro, então, vamos correr atrás do prejuízo antes, vamos mudar a mente, vamos mudar a alimentação, fazer atividades física, e se precisar arranjamos para a cirurgia, ok?

Apesar de o procedimento ser indicado para pessoas com obesidade mórbida, muita gente deseja fazer isso tendo um IMC menor do que 40. Isso pode trazer algum prejuízo para o paciente?

Dra. Bruna: A cirurgia bariátrica é recomendada para quem tem o IMC maior do que 40 ou IMC maior do que 35 com comorbidades. Se essas regras não forem respeitadas tem muito risco de desnutrição, então, paciente que nem tem tanto peso assim vai lá se submete à cirurgia, e além de ter todas as complicações de deficiência de vitaminas e minerais, se ele não tiver um peso muito alto, ele corre mais riscos do que benefícios. O paciente que fica caquético perde muita massa magra, e eu não quero que o paciente perca massa magra, porque massa magra é sinônimo de saúde. Massa magra é um envelhecimento saudável. Burlar essas regras da cirurgia bariátrica tem riscos demais, principalmente desnutrição, que é perder peso demais e sarcopenia que é a perda de músculos. Aí entra o fato que o envelhecimento vai estar muito prejudicado por causa da perda de músculos e ossos. Então, é totalmente contra indicado furar essas regras do IMC, e tem paciente também que quer engordar para poder fazer a cirurgia, então, não faça isso. Vamos procurar uma equipe multidisciplinar para te acompanhar e aí você vai ter a melhor indicação do procedimento adequado.

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Todo procedimento cirúrgico que formos fazer ou nos submeter, devemos procurar analisar tudo que se reserva ao paciente, calculando os riscos e consequência. Como é feita a análise desses riscos e quais são os principais impedimentos?

Dra. Bruna: Todo procedimento cirúrgico tem risco, pode ser na anestesia, que normalmente é anestesia geral, então, todo procedimento tem risco. O que a gente pensa é que tem riscos e benefícios. O paciente que por exemplo tem 150 Kg, qual é o risco dele na cirurgia? Imenso, porque ele está todo inflamado. Então, o nosso objetivo é fazer com que esse paciente emagreça um pouco durante o tratamento pré-operatório, para que a cirurgia não seja tão arriscada. Os impedimentos que a gente tem que avaliar são principalmente, a hipertensão, que tem que estar bem controlada para poder operar, diabetes, também tem que estar bem controlada, e por aí vai. A gente precisa de um acompanhamento pré-operatório adequado, mudança de mentalidade no pré-operatório para que esse paciente tenha êxito no seu procedimento.

A respeito da questão da cirurgia pode ter ligação com a dependência de álcool, gostaria de saber uma opinião: em relação a todas as drogas que o ser humano pode se tornar dependente, como cocaína ou tabagismo, essa substância entra para a lista de mais perigosas?

Dra. Bruna: São as dependências que a cirurgia acaba acarretando. Então, aquele paciente que não sabe lidar bem com o alimento, ele vai parar em outras alternativas. Eu acho que todas são ruins e todas entram para lista negra. Então, o álcool está incluído nisso, também tem o açúcar, que hoje é considerado mais viciante até do que a cocaína. Então, tenham cuidado, vamos diminuir o consumo de açúcar, de doces, de carboidratos refinados, porque, hoje para mim, o maior vilão da história é o doce e o carboidrato em excesso. O álcool também causa dependência e a pessoa precisa de quantidades menores para ficar bêbada. Além disso, ele vai atacando o fígado, então sim, o álcool está entre as piores substâncias, até porque ele é vendido facilmente. Você consegue facilmente, eu falo o mesmo do açúcar.

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Naturalmente, após a cirurgia de redução de estômago, o paciente passa a não suportar alimentar-se da forma de antes. Qual é o tipo de sentimento que ele chega a sentir, ele é mais físico ou psicológico?

Dra. Bruna: Após a cirurgia de redução de estômago, o paciente tem dificuldade de se alimentar. É físico mesmo, porque o estômago foi cortado, então, ele realmente não vai conseguir comer grandes quantidades de alimento e o psicológico normalmente não interfere muito nesse período, então, por isso que a gente precisa trabalhar muito bem esse psicológico antes, para ele entender que agora vai ter que comer bem menos, queira ele ou não, porque o estômago do paciente cabe bem menos quantidade.

Então essa diferença aí é muito mais física do que psíquica. Tem uma síndrome que a gente chama de Dumping, que é uma sensação de morte iminente. Normalmente é causada quando ocorre a ingestão de gordura em grande quantidade junto com açúcar, e a gente fala que o sorvete é um dos maiores exemplos para isso. Então, o paciente depois da bariátrica pode sentir uma sensação muito ruim quando ingerir, por exemplo, um sorvete.

Isso também é físico-químico pelo efeito pós-cirurgia bariátrica da intolerância que o paciente vai ter com o consumo de determinados tipos de alimento. Então não é só psicológico, é físico principalmente.


Dra. Bruna Marisa também deixa um convite especial para nossos leitores conhecerem seu consultório em São Paulo e seu Instagram que vai falar sobre a mudança de mentalidade, que são em sua opinião os três pilares do emagrecimento saudável e duradouro.

A doutora também está com um novo projeto que é “Os Segredos da Mente Magra”, onde vai ensinar as pessoas a reprogramarem a mente, os princípios da mente magra para lidar melhor com tudo isso e de preferência se preparar para um procedimento cirúrgico da melhor maneira possível, trabalhando sua mente para ter o maior sucesso total.

Entrevista em parceria com Luca Moreira.

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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