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Um dos grandes ícones da black music nacional, Di Melo é homenageado no EP batizado de “Podível e Impodível”, já disponível nas plataformas digitais. O projeto traz oito faixas, sete delas cantada por um expoente da nova cena musical contemporânea e uma faixa cantada pelo próprio homenageado e produzida por Diogo Strausz e do Tó Brandileone.

As setes faixar interpretadas pelos novos artistas foram disponibilizadas semanalmente desde fevereiro. A baiana Josyara dá voz a faixa “Má lida”, o músico Felipe El faz uma releitura muito pessoal de “Kilario”, para Theo Bial foi dada a missão de reler “A vida em seus métodos diz calma”. O paraense Arthur Nogueira deu uma nova roupagem à música “Aceito tudo”, Dora Morelembaum revisitou “João”, ficou para Yan Cloud o desafio de reler “Se o mundo acabasse em mel”. Julia Mestre criou novos arranjos e emprestou a voz para “Conformópolis”. Já o homenageado, Di Mello, faz uma releitura contemporânea da música “Minha Estrela”. Confira a entrevista:

Recentemente o senhor foi homenageado por grandes nomes da música brasileira através do EP “Podível e Impodível”. Como foi receber esse presente da nova geração dos artistas que performaram as sete faixas que compuseram o projeto?

Foi um brinde celestial, coisa de Deus, pura iluminação, sensibilidade aguçadíssima. Chorei de emoção, incrivelmente fantástico. O presente que pedi a Papai Noel, a Papai do Céu e aguardei ganhar no meu aniversário, tudo em cima.

Esse projeto “Podível e Impodível” foi uma ideia fantástica da Andreia Franco que ficou na pandemia ouvindo assiduamente Di Melo e se perguntou: “o que eu poderia fazer pela música desse jovem idoso?”. Daí surgiu a ideia fantástica de produzir esse trabalho com as músicas que ela gostou e eu só tenho a agradecer, porque foi tudo fantástico. Ela mesma produziu e bancou, o que não é fácil, e foi assim, maravilhoso, dádiva divinal.  Ela que convidou os artistas e que produziu tudo, foi muito incrível. Tive uma crise de choro, estou no ar até então, não estou cabendo em mim tamanha felicidade.

O seu primeiro álbum foi lançado há 46 anos e desde então vem sendo reconhecido por vários públicos. Em todos esses, quais você acredita ter sido os seus momentos mais marcantes de sua carreira, e quais serão os seus planos para comemorar os 50 anos do álbum de estreia que está por chegar?

Todos os  momentos desse disco foram louváveis, me felicito sempre, me surpreendo sempre com as pessoas falando sobre o assunto, dando depoimentos, se achegando, querendo saber, cantando, produzindo, se divertindo, dançando. Os shows são incríveis, então quer dizer, eu só tenho alegria, não tem tristeza esse disco, todos os momentos são incríveis, tudo que permeia esse disco é uma coisa que parece sempre inusitada e cada caso é um caso, em cada época é uma época, mas ele é sempre louvado.

Eu comemoro todos os dias os 50 anos deste disco. Assim como o imorrível foi revivível, tô comemorando. Faço ano todos os dias e esse disco também, ele faz parte de mim, faz parte do meu andamento, faz parte da minha vida como um todo. Então pretendo mesmo com essa pandemia superar essa história toda e ter gás e vida até lá para comemorar aliás esse disco tem que ter comemoração terna e eterna.

Nesse novo EP, também recebemos a honra de ouvi-lo performar uma leitura contemporânea do sucesso “Minha Estrela”. Como está sendo a experiência de revivê-la nos estúdios e quais são as transformações que conseguiu ver no mercado musical durante sua trajetória na indústria fonográfica?

São várias vidas numa só, estamos aí, o público de todas as idades aderiu ao som e para mim uma festa em cor,es luzes e sabores sempre. Esse disco não é brincadeira, graças ao Todo Poderoso, aos Anjos, Santos, luzes e poderes. Não tem trevas, só luz. Estamos aí, todas as músicas, música por música, letra por letra, e agora, incrível. Já começou esse presente, com essa dádiva da galera jovem gravando o “Podível e Impodível” que coisa, só lutar.

O mundo muda todo dia e se transforma, às vezes para o bem e para o mal. Aliás, nós mudamos muito, a uma eterna mutação nisso tudo, mas eu estou convicto comigo mesmo, o som é fantástico, “Minha Estrela” é uma música que foi feita no Japão como “Kilariô” também. Olha, haja flores, louros e louvores. Gostei muito dessa nova pegada, dessa nova levada fantástica, moderníssima. Continuo pau para toda obra no palco, compondo, cantando, escrevendo, minha cabeça não envelhece. Me sinto um garoto de 17 anos, não tão na performance, mas a cabeça é fantástica, ela viaja, não tem paratória. Estamos aí, muito contente com tudo.

Portador de tantos talentos como a música, atuação, escrita e pintura, podemos deduzir que suas experiências são inúmeras no cenário artístico. Poderia compartilhar um pouco com a gente sobre suas passagens por essas diversas áreas e quais conexões pode desenvolver entre elas?

Desde muito jovem eu me admitir gostando de arte, minha mãe cantava, meu pai tocava violão, mesmo não permanecendo, me sobrou a história sanguínea das várias artes. Sempre gostei muito de pintura, teatro, música, violão, tocar, cantar, e isso faz parte de mim, não consigo me ver de outra forma. Me congratulo com isso, sou todo feliz por isso por esse acontecimento.

Sempre vivi de arte em todos os aspectos. Sou oriundo de Pernambuco, minha base é São Paulo, mas desde pequeno eu empalhava, pintava, viva no parque São Pedro perseguindo todos os artistas que aparecia tentando mostrar meu trabalho, ia para o rádio Capibaribe, ficava na porta, enquanto não deixassem eu tocava viola, não ia embora. Ficava aporrinhando, fazendo uma linha ‘crimopentolho’ junção de cricri, morcego, pentelho e piolho. Meu padrinho tinha uma casa de ferragens em Pernambuco, me levou e fiquei oito dias, voltei  com a viola nas costas e me mandei. Ele falava: ‘vagabundo, não quer trabalhar, só quer  violar e violar’.  O português pirava, mas sempre foi assim, me dou para isso, deito e acordo com a arte. E que graça, que louvável que assim seja. Sempre persegui esse rumo de atividade, não consigo ser outra coisa, nunca bati cartão.

Existe alguma razão em especial para a escolha do nome do EP?

Então, “Podível e Impodível”. Rolou uma história que eu havia morrido, como estava sempre em todas feito placa de Coca-Cola, sofri um desastre de moto e sair de cena. Aí começou essa história, esse boato, Di Melo morreu. Que Di Melo morreu. Di Melo é imorrível. E aí, o imorrível deu nome ao documentário “Di Melo Imorrível”. Já que ganhou Kikito em Gramado e mais 11 prêmios, achamos por bem fazer a produção do disco “Di Melo Imorrível”, e eu ficava com essa história de que para o imorrível, nada é impodível.

Andreia captou essa mensagem e fez essa produção maravilha, todos os artistas que estão participando dessa produção tem um caminhar próprio, são muito sensíveis aguçadíssimo, e acho realmente uma glória, uma dádiva divinal por tudo isso que tá acontecendo. Meu muito obrigado eterno a Andreia Franco, que veio topou fazer, bancou, produziu e me convidou para gravar o “Minha Estrela”, que coisa, que coisa incrível!

Como é saber que mais e mais gerações têm buscado resgatar seu trabalho que durante anos passou esquecido?

Então, mais uma vez, só tenho a me glorificar dentro e fora do país, porque esse trabalho é conduzido lá fora. Ele permanece lá fora, os DJs lá fora começaram a tocar nas pistas, as rádios tocar também, e teve assim a participação maravilhosa de muitas coletâneas. Por exemplo, tem coletânea aqui que abre com Jorge Ben, a segunda música Di Melo; tem coletânea que abre com Tim Maia, a oitava música Di Melo; tem coletânea que abre com Ed Motta, a sexta música Di Melo; e  assim por diante. E tá na Blue Note. A coisa tem se manifestado sem que eu esteja bancando, porque tem muito sucesso isso aí bancado e que a partir do momento em que as pessoas não ficam bancando, a coisa deixa de acontecer. O meu trabalho permanece sem que tenha essa obrigatoriedade de estar bancando coisas.

E acontece isso muito normalmente, quer dizer, são jovens que aderiram ao som, jovens de todas as idades, que faz com que ele permaneça e estabeleça de uma forma sucinta. E eu só posso ficar feliz com todo esse acontecimento. Felicidade plena!

Para o público que não o conhece, nos conte um pouco quem é Di Melo.

Di Melo é um cidadão puro, fiel, sincero, honesto, capacitado e cumpridor das honrarias. A primazia é o som, arte por arte e alegria. Os shows são fantásticos, todo dia escrevo algo diferente. Tem umas 400 músicas inéditas, tem música gravada por Vando naquele disco que tem: “Moça me espere amanhã”. A última música é uma valsinha minha. Tem no disco do Jair Rodrigues “Abra um sorriso novamente”, a minha música “Paspalho” que é maravilhosa. Tem música minha gravada por Waldonys, que é um sanfoneiro que herdou a sanfona do Gonzagão. Tem a música “Kilariô” gravada por Léo Maia, filho do Tim Maia; pelo Emicida; e por mim na nova regravação do atemporal. Pretinho da Serrinha gravou “A vida em seus métodos diz calma”. E agora tem essa rapaziada do podível e impodível que é uma coisa muito boa, incrível! São todos muito talhados, polidos, finos, educados. Que coisa boa! Meu público é sensivelmente maravilhoso, gente bonita. Realmente uma festa cada show, uma nova descoberta, uma sensibilidade. Isso nada paga, sou todo feliz por isso.

Tudo é prazado, tudo é tempado! Então, quem não conheceu, em algum momento ou através de alguém, vai terminar conhecendo. É uma coisa que tá aí, é um sinal de belezura e esse público, cada um que vai conhecendo o trabalho, vai passando para outro e para outro. Essa divulgação boca-a-boca é uma coisa incrível. Não há como espelhar.

Saindo um pouco do projeto, sabendo o ano que estamos vivendo, quais são seus votos de positividades para o público que estiver lendo essa entrevista?

Essa pandemia é a terceira guerra mundial deflagrada. Já temos a quarta que é quando dormimos. E vai surgir a quinta, mas falo para todos que se cuidem, se vacinem quando puder e o mais rápido possível, porque essa história vai longe. 

Desejo a todos saúde, paz, amor e alegria. Quero dar um alô ao povo da saúde como um todo. Se cuidem, se preservem, fiquem em casa, se distanciem. É o que posso fazer e o que posso dizer. Tudo vale como aprendizado, nada acontece por acontecer, tudo tem sua razão de ser.

Costumo dizer, pessoas sensíveis sempre emocionam e fascinam. A vida é unir-se, nela você não faz aquilo que tem a lhe prazerar. Você está aqui, não sabe até quando irá ficar, nem há como considerar o que possa vir a ser ou se chamar viva, pois ninguém jamais conseguirá viver suas emoções. Se cuidem, se amem e preservem, plantem árvores. Recicle e detalhe, usem camisinha, camisolinha.

Autor

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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