Com tendências do ritmo caiçara, Paiol Sonoro chega com tudo em seu primeiro álbum

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Uma mescla de ritmos brasileiros e latinos marca “Dia Útil”, primeiro álbum do grupo Paiol Sonoro. O projeto, expoente da cena independente norte-fluminense, ganhou produção musical de Luiz Bento. O lançamento é do selo Cantores del Mundo e chega junto de um clipe para “Batuque Sertão”.

Em “Dia Útil”, Paiol Sonoro convida a uma reflexão em torno de uma expressão tão corriqueira. Usada comumente para delimitar o tempo voltado ao trabalho, questões financeiras e comerciais, essa qualificação dos dias pressupõe que alguns sejam, por sua vez, inúteis – aqueles não dedicados a ganhar dinheiro, mas sim entregues ao ócio e questões pessoais.

O primeiro álbum de Paiol Sonoro é, ao mesmo tempo, uma celebração da nossa diversidade cultural, e um convite a uma reflexão em nível pessoal, social e político. “Dia Útil” chega às principais plataformas de streaming pelo selo Cantores del Mundo. Confira a entrevista!

A música brasileira é bastante referenciada pelas suas raízes e misturas que atraem atenção dos mais diversos públicos, e essa marca está presente em “Dia Útil”, o álbum de estreia de vocês. Como está a animação de você com a repercussão do projeto?

Paiol Sonoro: O momento que o álbum está sendo lançado, que coincide com mais de 3500 mortos diários por covid-19 no Brasil nos faz dividir a atenção do lançamento com a crise política, econômica e sanitária que vivemos. É difícil ficar animado com um cenário caótico como este, mas acho que o disco vem em boa hora, pois, muito além de oferecer uma trilha sonora para os momentos de relaxamento e descontração, queremos trazer temas que ilustram nossos problemas sociais, tanto num âmbito coletivo como na música Resita, como num âmbito íntimo como em Método, e que ainda ressaltam a cultura latino-americana e afro religiosa como na música Coentro e Dendê. Enfim, tentamos seguir na linha de artistas brasileiros que trabalham um teor crítico em suas canções, como Chico Science, Itamar Assumpção, Marcelo Yuka, Criolo, Luedji Luna etc… especialmente nesse disco Dia Útil, essa é a nossa intenção. Se o disco ajudar a despertar criticamente as pessoas, achamos que já cumpriu sua função.

O nome do novo EP entrega uma das principais reflexões que as músicas do tracklist buscam difundir – a questão dos dias de trabalho da semana e que envolvem questões financeiras e comerciais. O quanto vocês acreditam que seja possível submeter esse termo aos pensamentos através das músicas?

Paiol Sonoro: É interessante, pois a construção do conceito do disco não foi feita de forma a proporcionar um entendimento escancarado do tema. O nome do disco não está presente nas letras das músicas, que possuem temas próprios, mas que juntas ilustram o que estamos propondo. Dia Útil é um trabalho que proporciona ao ouvinte não uma reflexão explícita, dada de forma direta, mas uma sensação, uma possibilidade de identificação com um pensamento crítico ao modo de produção e de organização social de nossos tempos. A reflexão em si é composta por 3 elementos, o nome dia útil que é uma ironia em relação a forma que o trabalho é oferecido e encarado em nossa sociedade, os ritmos latino-americanos e afro-brasileiros, que definem nosso posicionamento político e nossa identidade, e a ambientação, proporcionada pela faixa instrumental, Batuque Sertão, que abre o disco e sugere uma visitação ao estilo “realismo fantástico” de Gabriel Garcia Marques, as ruas de uma cidade latino-americana de interior. Por mais que o álbum tenha questões “palpáveis”, é mais pra ser sentido do que entendido. Cada música está de alguma forma presa nesse mosaico conceitual.

A questão da realidade pandêmica que estamos vivendo no mundo durante um ano, fez com que apesar da passagem do presencial para o home office ter diminuído em alguns casos muitos fluxos de atividades, e isso fez com que realmente muitas pessoas ficassem paradas. Vocês acreditam que esse novo EP possa ajudar o público a encontrar um novo caminho em suas vidas?

Paiol Sonoro: Não a encontrar um caminho, mas talvez a inspirar pessoas a dar uma utilidade real para o seu dia, voltando sua atenção mais para as necessidades do espírito, do amor, do afeto… Nosso álbum também pode ser ouvido simplesmente pra relaxar… É um passeio que estamos querendo propor, daí ser interessante ouvir o disco na ordem das músicas. É muito importante nesse momento de pandemia cuidarmos de nossa saúde mental. Na verdade achamos que o nome do disco veio bem a calhar com o momento, pois a pandemia colocou a ideia de “dia útil” em cheque. Numa realidade na qual os horários administrativos aglomeram pessoas, o “dia útil” que sempre engessou nossos horários em função das atividades comerciais e financeiras, hoje tem que se adaptar às necessidades da vida.

Uma característica forte do Paiol Sonoro é a sua mistura que vai alcançando até o ritmo caiçara do norte do Rio de Janeiro. Poderiam nos contar um pouquinho de como foi o nascimento do grupo?

Paiol Sonoro: Acho que a identidade Caiçara ajuda a nos definir… Somos uma banda formada no interior norte do estado do Rio de Janeiro, na cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, que apesar de ter tido a cultura indígena totalmente dizimada leva em seu nome ironicamente a palavra Goytacazes, em referência ao povo Goytacá, que habitava esse espaço originariamente. Nossa união se deu em função da produção das músicas do primeiro disco, onde formamos a banda e começamos a tocar. Estávamos tocamos até a última semana antes do lockdown em março de 2020. Nosso último show foi em Belo Horizonte.

Soubemos que o grupo de vocês se originou a partir da percepção da ânsia de uma presença que se se identifica com as características locais e ao mesmo tempo nacionais da música. O que vocês esperam trazer de representatividade em cada pedacinho do Brasil?

Paiol Sonoro: Em relação as referências locais, tentamos trazer um pouco da cultura popular da baixada campista no clipe de Batuque Sertão, que foi produzido com imagens captadas na Festa de Santo Amaro, distrito de Campos/RJ, que tem quase 300 anos de história e é a maior manifestação cultural e religiosa do interior do estado. No clipe é possível observar a cavalhada, que simula as batalhas europeias entre Mouros e Cristãos. Acreditamos que a essência das festas populares, presentes em todo o Brasil está bem representada em nosso trabalho por meio desse videoclipe e também pelos ritmos tipicamente brasileiros que escolhemos para abrir e fechar álbum. Além dessa identidade especificamente brasileira, existe também uma forte identidade Latino-americana presentes nas faixas Latinoamerica e Influência.

Em meio a tantos acontecimentos que a pandemia tem provocado, a música tem se tornado um dos grandes alívios para seus apreciadores. Quais vocês acreditam ser o verdadeiro poder que a sonoridade e os estilos musicais consigam provocar reações no público?

Paiol Sonoro: A música e a arte no geral são um combustível… A realidade massacra e nós nos refugiamos em livros, discos, peças teatrais, espetáculos de dança, exposições de arte. Queremos que nosso álbum seja mais um desses refúgios, e que também sirva de alimento para sobrevivermos, que inspire e seja também um aglutinador psíquico de quem pensa baseado em princípios humanistas, progressistas e solidários. Pensamos que o Dia Útil, além de ter raízes fortes na cultura brasileira e latino-americana é um álbum muito cosmopolita, logo conversa muito bem com qualquer pessoa que carregue esses mesmos princípios ao redor do mundo.

“Dia Útil” chegou nas plataformas musicais através do selo Cantores del Mundo. Como foi a experiência de trabalhar com a equipe e quais são as expectativas de vocês para que esse projeto possa continuar seguindo adiante?

Paiol Sonoro: O interesse do selo Cantores Del Mundo por distribuir nosso trabalho foi uma grande oportunidade que nos apareceu, pois nos conectou a esferas do mercado fonográfico que por estarmos no interior nos são muito distantes. A partir da Cantores e do trabalho do Arthus Fochi, diretor do selo, pudemos contar com o apoio da Ingrooves na distribuição e também com a assessoria de imprensa da Build up Media que está dando conta de espalhar nosso som e nossas reflexões por aí. Somos muito gratos pela atenção e espaço que nos é dado.

Deixem uma mensagem para os nossos leitores.

Paiol Sonoro: Se cuidem, fiquem em casa se possível e aproveitem para colocar nosso álbum Dia Útil para tocar… Está disponível nas principais plataformas de streaming e youtube. Se gostar do disco recomende a um amigo… Esperamos em breve podermos tocar e apresentar esse trabalho Brasil afora.

Acompanhe Paiol Sonoro no Instagram

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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