Almir Chiaratti aborda questões humanas universais em novo álbum

Tempo de Leitura: 6 Minutos

Almir Chiaratti sai dos “Bastidores do Sorriso”, seu primeiro disco, para protagonizar “Frágil”, um álbum que parte de canções profundamente pessoais para abordar questões humanas universais. O trabalho busca novos caminhos na MPB experimental combinando elementos orgânicos e eletrônicos e convida a uma reflexão sobre a nossa produção de lixo – do orgânico e reciclável ao emocional e ético.

“Frágil” chega às principais plataformas de música digital e acaba de ganhar um clipe para a faixa “Juízo”, completando sua trilogia de vídeos.

Cantor, compositor, instrumentista e realizador audiovisual, Almir Chiaratti mescla os seus talentos em um ousado projeto musical-visual. Produzido por Federico Puppi (indicado ao Grammy por “Guelã”, Maria Gadú), o álbum faz soar as percussões de Marco Lobo (Milton Nascimento, Maria Bethânia) e as guitarras de Jr. Tostoi (Lenine), os clarinetes de Maria Beraldo (Arrigo Barnabé, QUARTABÊ) e conta com a masterização de Diogo Guedes (Grammy Latino por “Em Trânsito”, de Lenine). Das 9 canções do álbum, 7 são de autoria exclusiva de Chiaratti e 2 em parceria com o escritor Daniel Pandeló Corrêa, “Suburbiapunk” e “Ponto Final”. Confira a entrevista:

Como surgiu a ideia  de se produzir o álbum “Frágil”, que nos faz refletir sobre questões humanas universais bem com a  nossa produção de lixo?

Primeiro surgiram as canções. Eu e Puppi, o produtor, escolhemos as faixas que compus pro disco e observei que todas elas tinham em comum narrativas de fragilidade. O lugar que reclama justiça, o lugar que se declara, o lugar de quem deseja algo bom para o outro, etc… A partir daí a palavra “frágil” foi ganhando força no conceito do álbum. 

O single “Mãe Terra” conta com algumas contribuições importantes, são elas:  Mari blue, Rui Cortez, e além é claro, de Kiko Dinucci que faz o tom do álbum “Frágil”. Como foi para você trabalhar com esses artistas? 

Mari Blue participa apenas da faixa “Mundo d’Água”. Em Mãe Terra temos a capa de Kiko, as percussões de Marco Lobo, meus violões e cello e produção do Federico Puppi. Sobre a capa Kiko recebeu a faixa e fez uma proposta de capa que ficou valendo! Foi ótimo o processo com ele, discutimos as tonalidades de cores que ele aplicou no digital sobre uma pintura que escaneou. Rui Cortez é estilista e diretor de arte e criou o figurino do TecnoCurupira personagem central da narrativa audiovisual que criamos para o disco, presente no clipe que dirigi com a cantora e realizadora audiovisual Anná. Temos a incrível Gabriela BlackBarbie é uma equipe incrível trazendo integrantes sobre os sons de Mãe Terra. Foi um grande aprendizado trabalhar com essa equipe e é um prazer enorme realizar esse sonho junto de pessoas talentosas e queridíssimas. Há um Making of do clipe no meu canal do YouTube em que podemos conhecer as pessoas que tornaram esse clipe possível! 

Com cores imponentes e letras cheias de realidade crua, o álbum “Frágil” é  cheio de verdades intrínsecas. Quais foram os sentimentos envolvidos na composição desse álbum?

A vida oscila o tempo todo entre a fragilidade e a potência de se saber finito. O disco tem a intenção de sugerir a mensagem de que as pessoas assumam seus próprios lixos, e por isso os figurinos feitos de material reciclável também. Meu sentimentos ao longo de um álbum como este são muitos, mas posso dizer que há muita felicidade em reunir pessoas tão brilhantes ao meu redor, a elas sou muitíssimo grato.

O single “Juízo” é uma crítica muito bem posta, com um clipe que traz elementos da natureza se mesclando a lixo, eletrônicos e com enfática, de que, tudo que o ser humano faz tem retorno a si mesmo. Como você encara através da sua poesia, os danos que estamos fazendo ao nosso Planeta?

Não percebo como danos ao planeta. O planeta seguirá sem nós se tornarmos nossa existência impraticável. Não tenho a intenção de salvar o planeta, meu objetivo é que as pessoas assumam seus próprios lixos, físicos, emocionais, psicológicos, e reciclem seus modos de vida. Na narrativa do disco, o lixo é um efeito de um modo de vida. Somos seres tecnológicos, dependemos de uma série de tecnologias para nos sentir pertencentes a uma série de ficções que compramos, sobretudo nas redes sociais, não é mesmo? 

Com esse novo trabalho, você vem explorando novos limites da sua musicalidade. O que o levou a essa mudança e quais são os ensinamentos que deseja transmitir com essa nova produção?

Não desejo transmitir nenhum ensinamento com o disco, ele está aí pra afetar e causar sensações. Sobre a musicalidade, acho que um disco só vale a pena ser gravado se ele for jogar a ideia de limite para um novo lugar.

Nos conte um pouco  quem é Almir Chiaratti e o que o levou para a carreira musical.

Eu lancei meu primeiro disco em 2015, vim do audiovisual e meu desejo é juntar no palco um experimentalismo sonoro, com performance, palhaçaria, poesia e música. Acho que estou caminhando pra isso. As canções e os discos são como fazer um média metragem, você vai criando um conceito, uma narrativa, um filme mesmo, sabe? Pra mim, tô fazendo a mesma coisa o tempo todo: contando histórias. Algumas em forma de música, outras em vídeo, outras eu nem sei que formato vão ter. Mas a graça é essa, (risos).

O projeto do álbum “Frágil”, além de ser marcante pelo fato de ser sua segunda aventura no lançamento de um disco, ele também se tornou algo muito pessoal e objeto de expressão para questionar certas situações da humanidade. Fazer uma abertura que pode causar identificação com tantas questões sociais necessita de uma forte coragem?

Acho que coragem é sempre o ponto de vista do outro. O corajoso normalmente tá tão envolvido com as questões do momento presente que nem passa pela cabeça essa ideia de bravura ou coragem. Acredito que conforme vai se ganhando mais experiência é natural irem aumentando as dobras do processo artístico. A expressão é o que me interessa sobretudo.

Aproveitando toda essa pegada social que o projeto tem e o recente lançamento do clipe da faixa “Juízo”, em meio a esse verdadeiro caos histórico que o mundo está vivendo, você acredita que esteja faltando juízo para que as pessoas possam colaborar para salvar a vida de mais de seus semelhantes durante a COVID-19?

Acho que toda questão complexa costuma ter uma resposta simples e equivocada. Dito isto, acredito que essa crise do capitalismo que a pandemia escancara demostra que outras formas de se organizar são urgentes e fundamentais. Este vírus evidência o egoísmo da desigualdade social, e isso já é uma forma de juízo. Nesse caso todos nós vamos pagar: quem está em casa, quem está no bar, o Papa, a recém nascida e quem nega 11 vezes a compra da vacina.

Obrigado pela entrevista!

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