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Com uma vasta experiência no mundo do audiovisual, o cineasta, roteirista e produtor Dannon Lacerda, natural de Guia Lopes da Laguna (MS), tem dois projetos engatinhados já em fase de pré-produção e que prometem mexer com o público: ‘Cabaré das Donzelas Inocentes’ e ‘Em Nome da Pátria’.

Dannon já tem importantes produções assinadas por ele, como exemplo Omoidê (2009), Diálogo (2010), Cine Centímetro (2013) entre outros. Para ele todos esses projetos foram os responsáveis fundamentais para ele dirigir o seu primeiro longa, ‘Copa 181’. Confira a entrevista:

Ficamos sabendo que você está em fase de pré-produção de dois longas. O que podemos esperar desses novos projetos?

Na realidade, estou na fase de desenvolvimento desses dois projetos, que é antes da pré-produção. O primeiro projeto, Cabaré das Donzelas Inocentes, é o mais antigo. Comecei a desenvolvê-lo em 2011, após a leitura do livro Conversas de Cafetinas, vencedor do Prêmio Jabuti 2010, que relata as histórias de cafetinas reais e muito conhecidas no interior do Brasil. Fiquei impressionado com as suas histórias de prazer e dor, de paixão e violência. Desde então, eu e o roteirista e também autor do livro, Sérgio Maggio, realizamos alguns tratamentos do roteiro e algumas leituras com atrizes como Dira Paes, Mariana Nunes e Miwa Yanagizawa e que hoje fazem parte do elenco. O público pode esperar um filme bem ousado na temática e em sua narrativa ágil, que mistura drama e humor em doses certas para falar de um assunto marginal, de um tipo de prostituição das zonas de meretrício dos anos 1980-1990 que não existe mais.

Em Nome da Pátria é um filme que surgiu após o meu retorno para o meu Estado, Mato Grosso do Sul, no início da pandemia. Ao retomar o contato com as minhas origens redescobri um desejo antigo de falar sobre a Guerra da Tríplice Aliança (também conhecida como Guerra do Paraguai), que teve um grande impacto na região onde nasci que faz fronteira com o Paraguai. Duas obras literárias são as fontes iniciais da minha pesquisa e que abordam esse evento – que foi o maior conflito armado da América Latina – a partir de um ponto de vista feminino.

“Em nome da Pátria” é um projeto super especial, porque além de contar sobre a história da Guerra da Tríplice Aliança, você descobriu que seus tataravós fizeram parte dessa história. Qual é a sensação de poder contar sobre a Guerra do Paraguai no cinema sabendo que membros da sua família estavam ali?

A pandemia foi e ainda é um desafio muito grande para todas as pessoas, que tiveram que se reinventar. Comigo não foi diferente… e nesse caminho, decidi ir a fundo nas pesquisas sobre a minha árvore genealógica, que comecei a fazer após um teste de DNA. Muitas informações estavam perdidas… então entrei em contato com diversos cartórios de Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e da Paraíba. Foi uma surpresa e uma alegria quando descobri que Senhorinha Barbosa Lopes e José Francisco Lopes eram meus tataravós, pois a cidade onde nasci tem o nome de Guia Lopes da Laguna em homenagem a ele devido à sua participação na Guerra. Fiquei ainda mais surpreso quando conheci maiores detalhes da vida da minha tataravó através do livro “Senhorinha Barbosa Lopes – Uma História da Resistência Feminina na Guerra do Paraguai”. A sensação de poder contar essa história através de um viés familiar e ancestral é muito forte e especial. Lembro de quantas vezes passei pelo monumento onde estão os restos mortais do meu tataravô na Praça General Tibúrcio, em frente à praia Vermelha, na Urca, sem saber que estava diante não apenas de um monumento histórico, mas também do mausoléu onde repousa uma parte da minha ancestralidade.

Quais são seus maiores objetivos na produção desses dois longas?

São dois projetos totalmente diferentes, mas em ambos a questão feminina se destaca. Talvez por ter sido criado apenas por mulheres (minha avó, minha mãe e as minhas tias trigêmeas), consciente ou inconscientemente, acabei escolhendo temáticas que demonstram a importância da liderança feminina em duas situações distintas: na zona de meretrício e no palco de uma guerra. Assim, meu objetivo maior é dar visibilidade a essas mulheres através de um olhar humano e poético, mantendo sempre as características do tipo de cinema que desenvolvi ao longo da minha carreira, que se distingue por ser um processo colaborativo onde o roteiro é reconstruído em conjunto com o elenco. Nesses dois casos, pretendo primar ainda mais pela equidade de gênero nas equipes e por isso estou buscando profissionais mulheres para ocuparem postos importantes nessas produções, afinal, é o mínimo que se espera de duas produções que abordam temáticas femininas.

Em que a obra “Cabaré  das Donzelas Inocentes” poderá contribuir para o entendimento social sobre a vida dessas mulheres?

Quase todos os adolescentes da minha época eram introduzidos ao mundo do sexo através das zonas de prostituição. Ainda hoje isso é a uma realidade presente no interior do Brasil, especialmente. Eu não perdi a minha virgindade assim, mas frequentei muito esses lugares para tomar cerveja e observar essa realidade de perto. A minha amiga Gabriela Leite, que escreveu “Filha, mãe, avó e puta” e foi fundadora da grife Daspu, me disse certa vez que a prostituição é um trabalho como outro qualquer, mas que o moralismo e a religião não deixam as pessoas verem isso dessa forma. Isso mudou a minha maneira de pensar e de entender que a liberdade é um direito fundamental que deve ser preservado e respeitado independente de suas crenças e preconceitos. Penso que o filme tem a capacidade de desmistificar alguns paradigmas e estereótipos, apesar de não se furtar à denúncia da violência contra as mulheres.

Como você define seu trabalho do início até agora?

Desde criança, sempre fui apaixonado por cinema e isso pode ser visto no meu curta semi-biográfico Cine Centímetro, cujo meu personagem é interpretado por Malvino Salvador. Entretanto, apenas quando mudei para o Rio em 2006 é que consegui iniciar a minha carreira cinematográfica. Eu já consigo perceber em todos os meus filmes duas características principais: uma tem relação no modo de fazer meus filmes. Eu chamo de cinema-processo, onde cada etapa do filme é realizada por um trabalho colaborativo, de troca com a equipe e especialmente com o elenco através de laboratórios e improvisações. A outra característica tem relação com a busca de uma narrativa fluída e natural, de uma poesia que não está apenas nas palavras, mas principalmente nas composições imagéticas, nas “coisas pequenas mijadas de orvalho” como escreveu o poeta Manoel de Barros. Esse cinema essencialmente industrial, apressado, cheio de clichês, me cansa profundamente. Por isso, busco um cinema em seu aspecto coletivo e social, que não busque resposta, mas que aponte reflexões.

Para o público que ainda não o conhece, nos conte um pouco quem é Dannon Lacerda.

Sou essencialmente um menino do mato que ama o Rio de Janeiro e que sempre teve uma ligação muito forte com a arte. Nasci em Guia Lopes da Laguna (MS), uma cidade com menos de 10.000 habitantes, e onde fiz até o ensino fundamental. Lá fui dançarino e professor de danças folclóricas, mas sempre com o sonho de me tornar cineasta. Em Campo Grande, capital do meu estado, tive contato com o teatro e escrevi e dirigi uma peça em 2005. Morei em Brasília por dois anos quando tive a oportunidade de coordenar o Circuito Cultural Banco do Brasil, o que me possibilitou conhecer a realidade cultural de 21 capitais brasileiras. Fui gerente de programação do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no período de 2006 a 2020, onde aprendi muito e também colaborei na realização de centenas de projetos de grande relevância. Mas foi no cinema, essa paixão tão antiga, que me encontrei enquanto artista. No fundo, continuo sendo o mesmo menino do mato do passado, porém com a escrevivência dessa trajetória tão diversa onde aprendi que, apesar dos desafios, viver é muito simples quando a gente aprende a estar no aqui e no agora, desenvolvendo um processo de escuta que possibilite ser melhor a cada dia.

Suas obras dialogam com  histórias pouco faladas ou se faladas, são normalmente levadas mais para um lado fantasioso. Porque fez a escolha de mostrar um modo diferente destes? Tem conseguido chegar às obras a formatação que você sempre desejou?

Eu não diria que são lados fantasiosos, mas poéticos. A “poesias” sempre esteve presente em nossas vidas, mas nosso olhar e a nossa escuta vão sendo capturados cada vez mais pelas distrações de um mundo capitalista, dos sistemas de produção que exigem cada vez mais, desse lugar do ego, dos smartphones, das redes sociais que criam bolhas etc. A recuperação desse lugar da poesia é fundamental para a nossa saúde, para resignificar a nossa existência. Citando novamente Manoel de Barros, ele escreveu: “Tudo que não invento é falso. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. Tem mais presença em mim o que me falta”.

Não posso afirmar se as minhas obras chegam às pessoas como eu desejaria, porque meus filmes são muito abertos e cabem diferentes interpretações a partir da vivência de cada pessoa. Às vezes eu fico impressionado com determinados comentários e análises sobre meus filmes e acabo (re)descobrindo questões que talvez eu não tenha colocado de forma consciente.

Autor

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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