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Temos uma brasileira em um dos filmes mais esperados na história da música: a cinebiografia da banda Bee Gees. Carina Haller, brasileira por parte de mãe e suíça pelo lado do pai, terá papel de destaque no longa depois de ter uma longa carreira no teatro. A atriz, que saiu do Brasil aos 10 anos de idade e se mudou para os Estados Unidos aos 19 anos sozinha para estudar artes dramáticas na famosa CalArts (fundada por Walt Disney na década de 60), em Los Angeles, é também destaque no cinema nacional e está no elenco de “O Faixa-Preta: A verdadeira história de Fernando Tererê”.

Carina fará parte da adaptação da história do grupo de pop-rock australiano Bee Gees para o cinema. O longa que será dirigido pelo renomado e premiado diretor Kenneth Branagh, que também esteve à frente de filme como Hamlet (1996), Thor (2011) e Cinderela (2015), é produzido por Graham King, que ganhou 4 Oscars em 2019, pela biografia do Queen “Bohemian Rhapsody”. Carina ainda não pode contar nada sobre o papel, mas já começou a composição da personagem e confia muito na equipe.

Além da carreira internacional no teatro e de inúmeros comerciais nos Estados Unidos, Carina, que já atuou no Brasil com a série “Desencontros” exibida pela Sony e pela Netflix, voltou ao Brasil para gravar o filme “O Faixa Preta”. Essa será a estreia da atriz no cinema brasileiro. O longa que conta a vida do Pentacampeão mundial de Jiu-Jitsu, Fernando Tererê, é estrelado por Raphael Logam (indicado ao Emmy como melhor ator em 2020).

Carina ficou 10 anos em repertório com diversos teatros em Los Angeles. Muitos dos teatros que participou eram casas clássicas como A Noise Within, o maior teatro clássico da Califórnia . Lá fez peças de Shaw, Shakespeare e Pirangello com alguns dos diretores e artistas do país. Confira a entrevista!

Considerada uma das biografias mais aclamadas pelos amantes da música, a Banda Bee Gess vai ganhar um filme, onde você terá um papel de destaque. Como vem sendo sua preparação para o filme e quais têm sido suas expectativas?

Primeiramente muito obrigada pelo convite. Eu fiquei sabendo do filme do Bee Gees no ano passado quando a Paramount conseguiu os direitos das músicas e da biografia dos irmãos Bee Gees. A maior parte do filme será rodada em Londres, já que eles migraram para lá quando criança da Austrália em 1958. Nesse momento a minha preparação está sendo absorver tudo que existe sobre a banda, como o documentário da HBO How Can You Mend a Broken Heart, biografias escritas, artigos e relatos pessoais para entender o que se passava por trás do sucesso de 200 milhões de discos. Coisas como drogas, álcool, traição, acusações de abuso sexual e o preço da fama foram fatores que deterioraram a saúde mental e até levaram o mais novo Andy a se matar. Também escuto muito as músicas deles para entender a mensagem atrás dos artistas. Essas músicas dos anos 60 e 70 tinham muito o que dizer politicamente, era uma época de muita revolução, tal como os Beatles faziam muitas críticas contra a sociedade, os Bee Gees também deixam sua mensagem. É gostoso demais entrar na década de 70 pro filme! Fora que eu amo moda, e a moda dos anos 70 é uma das minhas influências até hoje. Me dê um óculos aviador degradê e um colete e eu já me acho a Janis Joplin!

Nós soubemos através da sua biografia que a sua ida para os Estados Unidos foi por volta dos seus 19 anos, quando decidiu ir atrás de seus sonhos como artista. Quais foram as dificuldades que encontrou e como foi sua adaptação na considerada “terra do cinema”?

Quais não foram os desafios, né? Primeiramente tem a questão do idioma. Eu só comecei a falar inglês com 10 anos de idade. Meus pais tiveram que mudar pra Suíça por conta do trabalho e eu saí de uma escola católica brasileira para uma escola internacional que só se falava Inglês. Eu era a única brasileira lá. Mas se não tivesse domado o idioma eu jamais teria entrado pra CalArts, a faculdade que me trouxe pra Califórnia aos 19 anos. Fiz teste em teatro clássico, na linguagem de Shakespeare, que é praticamente outra língua, competindo por uma das 16 vagas com 2500 candidatos. Você imagina a minha surpresa e felicidade quando entrei. O próximo obstáculo foi o visto de trabalho. Os Estados Unidos são muito rígidos com vistos para artistas. Existe um visto para artistas chamado O-1, “para artistas com habilidades extraordinárias” e para provar isso foi mais de um ano de conversa com advogados e companhias de teatro com que eu trabalhei. Daí peguei o visto e começou a batalha de achar agência de talentos! A primeira agência que me aceitou era falsa, não existia. Era uma empresa ghost, só fui descobrir depois de 6 meses sendo enrolada! Com tantas dificuldades uma pessoa sana naturalmente pensaria em desistir mas a voz de querer criar pra mim sempre falou mais alto.

Em seu currículo, você já participou tanto de produções nacionais como internacionais, como o filme brasileiro “O Faixa-Preta: A Verdadeira História de Fernando Tererê”. Como define o seu carinho pelo cinema brasileiro, e quais são as principais diferenças que vê em comparação com as produções americanas?

O cinema brasileiro me encanta por trazer essa riqueza da nossa cultura e forma de ver a vida que é tão especial e saudável. Eu amo o Fernando Meirelles, o Kleber Mendonça Filho, a Fernanda Montenegro, o Carlos Saldanha, o Raphael Logam. É esse tipo de cinema brasileiro que me interessa. E trabalhar no Brasil sempre foi uma experiência incrível. Apesar de as produções aqui serem menores e muitas vezes mais suadas que as produções de lá (no sentido de direitos do trabalhador mesmo), aqui as pessoas são sempre alegres, sempre disponíveis. Lá é mais seco. A cultura é mais fria e o set tem uma sensação mais séria. No Brasil a gente se diverte mais. Essa coisa dos direitos dos trabalhadores é um assunto importante lá. Eu até postei sobre isso no meu Instagram hoje. Os técnicos do cinema ou seja todo o pessoal do figurino, da maquiagem, do som, da luz, da câmera, ou seja todos as pessoas que são essenciais para indústria estão nesse exato momento em greve contra a Netflix, a Amazon, e Hulu, e todos os streamers exigindo melhorias nas condições de trabalho.

Atualmente, você é agenciada pela Untitled, que também é responsável por nomes como Penélope Cruz, Dakota Johnson, Ashton Kutcher, entre outros. Como é a sua relação com o mercado artístico de lá? Já fez muitas amizades entre os astros?

Eu amo a minha agência. Temos uma comunicação bem aberta e isso é importante pra mim que não sou uma atriz muito comercial. Eu gosto de fazer papéis que me movem, que me tocam profundamente. Eu amo personagens femininas fortes e ousadas. Acho que o cinema é uma arma muito forte para mudanças. Eu cresci numa cidade com somente 15 mil habitantes na Suíça, foi pelo cinema que descobri o mundo, que descobri a mulher ambiciosa e sem medo dentro de mim. Acho que o cinema melhorou muito na última década. Não faço personagens que vitimizam mulheres, que pintam mulher como um ser mais fraco. É muito gratificante ter um time que acredita no meu talento. Eles acabaram de me dar um teste com o ator JK Simmons do filme Whiplash. O papel é para uma mulher mexicana grávida que luta para salvar a filha sequestrada. E sobre a amizade com astros… A Barbra Streisand foi no meu casamento! Ela conhece o meu marido desde pequeno, é uma mulher incrível que me inspira um tanto, por isso conviver com ela e ter ela como mentora na minha carreira está sendo nada menos que incrível.

Você chegou a viver em diversas regiões como o Brasil, Suíça e Estados Unidos adquirindo a cultura de cada espaço que passou. Como essa aquisição cultural contribuiu para sua vida e carreira?

Nossa, essa é uma pergunta muito legal porque assim, no teatro, você tem que imaginar se tá nevando né? Raramente tem neve caindo no palco. Já fiz cena em que chovia no palco, mas neve, ainda não! Mas a experiência de viver na neve e uma boa analogia a como essas experiências me afetaram. A Suíça é um país pequeno e muito tradicional. Existem cidades na Suíça que parecem medievais. E os costumes, a cultura da Suíça é realmente única. Por exemplo, lá a gente comprimenta as pessoas mesmo sendo estranhas ao passar por elas na rua. Tem essa coisa da etiqueta na Suíça. Como o protocolo de se apresentar no telefone. Tem uma forma correta e incorreta quando você liga pra alguém. E de como entrar numa loja também. Essas são coisas que somente os locais conhecem. Por isso foi incrivelmente natural pra mim fazer papéis de Shakespeare com poder, com status. A postura, a forma de falar, a etiqueta, foram coisas que eu cresci praticando. Depois a gente fala 4 línguas oficiais na Suíça: Italiano, Francês, Alemão e Romansch que ta se perdendo, mas meus avós ainda falam. Eu falo 4 idiomas. Tudo isso é de uma riqueza enorme pra mim como artista. E sem contar o lance de ter a mente aberta. Eu estou sempre questionando no que acredito pois estou sempre sendo puxada para crenças diferentes.

Como surgiu a ideia de que você queria ser artista?

Eu virei artista porque não me enquadrava bem nos moldes normais da sociedade em que cresci. Não acreditava que tinha que ficar dois terços da minha vida trabalhando numa coisa que não gostasse porque tinha que ter plano de saúde. Meus pais são do mundo financeiro. Eu me sentia mais próxima dos personagens das peças que lia do que deles. Não precisamos ser iguais só porque somos família. Eu comecei aos 11 anos fazendo teatro profissional. Eu fazia parte de uma companhia de teatro em Zurique e tinha participações no palco como a filha, a neta, a irmã… E a adrenalina que o palco me dava era o que mais me fazia feliz. Daí quando fui ficando mais velha e lendo textos mais densos descobri o quanto o teatro tinha pra falar, o quanto importante e essa arte no mundo. Geralmente o teatro não é um lugar comercial como a tv e o cinema mainstream e isso me fascinava. Não ligava muito pra TV e cinema quando criança, mas o teatro… tinha que pensar, tinha que analisar, ocupava meus pensamentos por dias depois de assistir uma peça. A minha mãe é uma excelente contadora de histórias. E a minha avó Zana de uma humanidade, de uma generosidade e integridade que não existe igual. Mais tarde aprendi que existe cinema como o teatro. Comecei a fazer cinema independente e gostei. Existem muitas diferenças entre os dois meios. O teatro é espontâneo, qualquer coisa pode acontecer e você tem o luxo de ver os atores reagirem organicamente em tempo real. Já no cinema, a gente pode ir de Beijin pra Suíça num piscar de olhos.

Em linhas gerais, nos conte um pouco, quem é Carina Haller?

Carina é uma mulher forte e determinada. Uma pessoa que tem dificuldade a se enquadrar em normas da sociedade. Que não acredita que o mesmo caminho funcione para todos. Que chora quando vê o estado patético que o mundo está, com o meio ambiente sufocado debaixo de tecidos e plástico por não termos mais controle no consumerismo. Uma mulher que gosta de dividir o que sabe e que ama aprender. Uma brasileira – suíça, às vezes mais suíça-brasileira. E acima de tudo uma girls’s girl, uma menina das meninas! Não acredito na competição entre mulheres. Tenho 3 irmãs . Pra mim não existe essa coisa de competir com mulheres. É tolice competir com mulher pois o mundo já nos oprime. Já são pagos salários menores, temos que optar entre carreira ou família e fazer tudo isso como se não sentíssemos dores mensalmente. Tá na hora de normalizar mulheres apoiando mulheres. Não se preocupa em competir com outra mulher. O mundo já toma conta disso.

Quais são os maiores desafios que você encontra na preparação de um novo personagem?

Quando vou fazer um personagem novo, o mais importante é alinhar a minha experiência com a experiência da personagem. Não quer dizer que se a personagem fuma eu tenho que fumar. Quer dizer que eu tenho que encontrar o porque que ela fuma. Qual é a inquietude na vida dela que eu, Carina, tenho parecida? Esse processo de análise é o mais gratificante mas também o mais difícil. Às vezes a personagem faz coisas que você não faria, como por exemplo matar alguém. Mas tem que achar as paralelas. O que faria eu pensar em fazer uma coisa dessas? Esse olhar para dentro às vezes é bem complicado porque você tem que ser muito honesta consigo mesma e reviver experiências que prefiro esquecer. Mas esse é o trabalho do artista. E entrar numa casa quando ela está em chamas, quando todo mundo corre do fogo. Precisamos de artistas para lembrar a nós da nossa humanidade.


Acompanhe Carina Haller no Instagram

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

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