Juliana Linhares fala sobre carreira e mostra sua força como mulher nordestina

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A cantora, compositora e atriz potiguar Juliana Linhares apresentou o show “Nordeste Ficção”, baseado em seu aclamado álbum de estreia homônimo. Por conta da pandemia a transmissão aconteceu virtualmente, direto do canal de Juliana no Youtube.

Escolhido por Juliana Linhares e Marcus Preto, diretor artístico do projeto, o repertório do espetáculo extrapolou as canções apresentadas no álbum de estúdio. Em cena, a cantora interpretou também clássicos escritos por compositores nordestinos, como Alceu Valença (“Tesoura do Desejo”), Belchior (“Comentário a Respeito de John”), Dominguinhos (“Contrato de Separação”, parceria com Anastácia), Sivuca (“Capim do Vale”, dele e Paulinho Tapajós) e Zé Ramalho (“Galope Rasante”). A produção musical do espetáculo foi de Elísio Freitas, que também assumiu as guitarras na apresentação. A percussão ficou por conta de Bóka Reis. Confira a entrevista:

Para você, o que é ser Nordestina?

Acho que ser nordestina hoje para mim é uma grande questão, uma grande contradição, é também uma grande busca de compreensão, porque essa coisa do Nordeste, essa invenção que determina uma região, os hábitos, acho que hoje para mim, ser nordestina, é desconstruir a ideia de ser nordestina que as pessoas têm. É ser nordestina além das expectativas, é ser uma nordestina que olha para suas raízes e questiona e se coloca à disposição de mudar, de quebrar padrões e conceitos, de quebrar estereótipos. Ser nordestina hoje é um grande papel de desconstrução na sociedade e também valorização dessa pessoa nordestina que foi tão desvalorizada, mas sem deixar de questionar o lugar estereotipado de onde isso vem, sem querer reproduzir os mesmos padrões. Então, ser nordestino é uma grande busca, porque é um ser ou não ser o tempo todo.

Como foi ter trabalhado com o Zeca Baleiro na canção Meu amor afinal de contas?

Zeca Baleiro foi uma grande honra, e é um grande presente, um cara que ouvi a minha vida inteira, minha infância e adolescência. Sempre tive muita sede pela obra do Zeca, gostava de ouvir, esperava o que ele ia lançar, os discos dele para mim eram muito bem construídos. Ele é um cara que segue em atividade, um contemporâneo que tá aí vivo, pulsando, compondo, criando, muito legal isso se atravessar na minha vida, ser fã e daqui a pouco, acompanhar ele pulsando e conseguindo ter ele no disco. Ele foi extremamente parceiro, generoso e afim da troca sabe, como alguém que tá vivo. Isso me deu muita luz, esperança na minha trajetória, de pensar que a vida tá aí né, a gente precisa sempre acreditar na troca, na mudança, no futuro e nas pessoas novas. O Zeca é um cara que mudou muito a forma como a música brasileira olhou e olha a música do Nordeste, ele faz uma música universal, saudando as raízes, mas levando as músicas para outros lugares. Ele me indica muito o caminho.

Atualmente, não só no meio do entretenimento, mais de várias categorias, o preconceito contra culturas (xenofobia), acaba contraindo cada vez mais a imagem de que o Brasil seria um país receptivo e ricamente miscigenado. Você como nordestina que está envolvido com o grande público através da música, qual sua opinião em relação a esse triste fato que ocorre em nosso país?

O brasileiro não conhece o Brasil. O Brasil é muito grande, somos muito diferentes, essa coisa que a gente tem que unificar identidade, só faz com que a gente apague muitas existências únicas de vários lugares do nosso Brasil. E apagar, faz apagar a pluralidade cultural, e é muito doido você falar sobre xenofobia e miscigenação no Brasil, é indo lá para trás e não falar só sobre a miscigenação com o povo preto, mas falar também sobre a miscigenação com povo indígena, como esses povos foram dizimados… E aí a gente vai para uma questão muito profunda de Brasil, de apagamento histórico e que continua né, a gente continua olhando para o Brasil escolhido, queimado, um Brasil branco, tradicionalista, o Brasil que escolheu ao longo da história ser maléfico. Muitas vezes apagar existências. E aí isso reverbera nessa dificuldade do preconceito, da xenofobia que vai para muitas instâncias. Acho que é uma discussão longa sim para a gente ter em algum momento, mas é muito triste, como falei, o preconceito que surge disso tudo é histórico, é muito anterior a simplesmente hoje, o preconceito linguístico, racial, vem desse apagamento fundante na história do Brasil. Acho que é uma discussão que a gente tem que ter longa.

Devido a pandemia, nós já comentamos aqui sobre a adaptação que o show “Nordeste Ficção” para o formato virtual. Nesse último ano, devido à situação atual, essa tendência cresceu muito. Acredita que essa modalidade permanecerá como uma metodologia forte mesmo em uma situação pós-pandêmica?

Eu acho que sim, acho que o virtual veio como uma Revolução dos anos 20 20, acho que realmente é uma revolução tecnológica que a humanidade já estava prevendo. Eu acredito que o virtual vem para ganhar, porque a gente consegue se conectar, é muito doido. Não acho que jamais a gente vai deixar de fazer o presencial, que é outra vivência ou experiência, a gente precisa se conectar nesse lugar, mas o virtual também conecta pessoas que estão distâncias. Então, a gente consegue fazer um show e pessoas de outro lado do mundo assistindo, e a gente consegue fazer um curso com pessoas do mundo inteiro, consegue dar aula, e isso é muito rico, isso é muito importante. A gente se globalizar, entender o mundo, não ficar dentro da nossa casinha e poder se conectar com o todo. É muito rico, muito poderoso, acho que vem para ficar, mas acho que tem que se equilibrar, não pode ficar só nisso também, corta muito o barato da nossa existência, da nossa troca enquanto artista presencial, do calor que alimenta… Acho que são coisas que precisam andar juntas, mas acho que vem para ficar mesmo depois que as coisas melhorarem, espero.

Após o lançamento do álbum, o mundo foi pego de surpresa na mesma época devido ao início da pandemia, o que impossibilitou as agendas de eventos de todo o mundo. Soubemos que essa situação também afetou alguns projetos seus. Quais estão sendo os planos para se reorganizar e quais serão seus primeiros passos para o retorno à normalidade, assim que for permitido?

Como todo mundo, fui pega de surpresa, e atrapalhou os meus projetos, assim como para todo mundo. Sempre penso nisso, que não estou sozinha nesse barco, que a gente tá junto e a gente vai se equilibrando, entendendo e construindo as formas. Então, acho que é hora mesmo de se conectar virtualmente. As minhas previsões são essas, não vou fazer nada com meu trabalho que põe em risco a minha saúde e nem a saúde de ninguém, vou seguir trabalhando no virtual, produzindo clipes, produzindo conteúdo digital, de informação em relação ao disco, fazendo Lives, fazendo shows online e batendo papo, aberta a discussões, a entrevistas e tudo que puder fazer nesse momento. As minhas previsões são manter o disco vivo, e acho que em Junho vou fazer um ciclo de Lives falando sobre essa coisa da invenção do Nordeste, trazendo alguns convidados e vai ter lançamento de clipe esse mês, vai ter Making of, em breve a gente vai fazendo mais coisas, show também vai ter. Então é isso, a previsão é essa até poder voltar o show presenciais. Quando a gente voltar, eu quero me jogar no mundo, encontrar todo mundo.

Quais razões a levou a escolha do repertório com canções de Belchior, Zé Ramalho e Dominguinhos?

Essas músicas fazem parte da minha infância, era um repertório que meu pai ouvia em casa, é um repertório que me fundou sabe, que me constituem enquanto artista, enquanto voz. Foi um repertório que influenciou muito para a construção do meu disco, para a sonoridade, para minha voz, para o que eu queria dizer, para a poesia de um Nordeste galope rasante. A poesia de Zé Ramalho, a voz, a forma falada, referência que ele tem desse lugar popular e ao mesmo tempo tão inovador, gosto muito dele. Belchior é um grande poeta do mundo, é um cara que indicou a realidade para a gente, com muita poesia e tão forte. Esse dedo espetado dele na realidade que a poesia fica gritante, fica e se confunde com a verdade da vida, e a gente fica impressionado com o quanto ele conseguiu apontar a realidade para gente com tanta força. E essa coisa da ficção que ele já cantou na música dele ‘Nordeste é uma ficção’… São pessoas que são referências muito grandes para mim. João do Vale é uma grande referência na minha vida, um dos meus compositores preferidos. Foi meio que colocar no jogo, o que inspirou mesmo o meu trabalho, minha vida, o disco também.

Nos conte um pouco quem é Juliana Linhares e o que você mais deseja fazer assim que a pandemia acabar.

Juliana Linhares é uma pessoa normal, uma pessoa que quer abraçar todo mundo, dialogar, ver a família, quer dançar, quer comer, quer falar, quer se expressar, quer crescer. Uma pessoa como todas as outras, querendo viver de uma forma mais saudável, mais possível, mais alegre em um mundo um pouco melhor. E o que desejo fazer assim que a pandemia acabar, acho que é botar meu bloco na rua mesmo, fazer as pessoas suarem a saudade, a alegria e o desejo de vida para um Brasil mais pacifico, mais poderoso amorosamente. A gente tá precisando muito dessa virada.

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

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