A neurodiversidade no mercado de trabalho tem se tornado um tema cada vez mais debatido, especialmente quando falamos sobre a inclusão de pessoas autistas. O autismo, que faz parte desse espectro, é caracterizado por padrões diferenciados de funcionamento cerebral, que podem trazer desafios, mas também habilidades únicas e altamente valiosas para determinadas profissões. Em um cenário onde empresas buscam inovação e produtividade, reconhecer e aproveitar essas habilidades pode ser um diferencial estratégico.
Embora a sociedade ainda esteja aprendendo a lidar com a inclusão efetiva de pessoas autistas, alguns setores já perceberam o grande potencial desses profissionais. Segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), estima-se que 1 em cada 36 crianças seja diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, mesmo com um número crescente de diagnósticos, a taxa de desemprego entre adultos autistas permanece alarmante. Pesquisas indicam que até 85% dos autistas com nível superior estão desempregados ou subempregados, não por falta de competência, mas pela ausência de adaptações adequadas nos ambientes de trabalho.
As características neurológicas dos autistas, que incluem uma alta capacidade de foco, pensamento lógico aguçado e percepção detalhada, fazem com que se destaquem em áreas como tecnologia, ciência e artes. Empresas como Microsoft, SAP e IBM já possuem programas voltados à contratação de profissionais neurodivergentes, reconhecendo que esses talentos podem trazer uma abordagem inovadora e diferenciada para a resolução de problemas.
Para entender melhor como o cérebro autista opera e de que forma o ambiente profissional pode ser adaptado para favorecer seu desenvolvimento, conversamos com o Flávio Sallem, neurologista do Hospital Japonês Santa Cruz. Confira:

Entrevista com Flávio Sallem
Quais são as principais características neurológicas de pessoas autistas que podem ser consideradas diferenciais no ambiente profissional?
“As principais características neurológicas de pessoas autistas incluem uma conectividade cerebral diferenciada, com maior foco em áreas relacionadas à atenção aos detalhes, processamento lógico e memória de trabalho. Isso pode se traduzir, no ambiente profissional, em um olhar mais atento para padrões, regras e processos. Muitos autistas também apresentam uma capacidade excepcional de hiperfoco, ou seja, conseguem manter a concentração por longos períodos em tarefas específicas, o que pode ser um diferencial importante para determinadas funções.”
Existe alguma área do cérebro ou funcionamento cognitivo que explique a tendência de algumas pessoas autistas a se destacarem em carreiras como tecnologia, ciência ou artes?
“Sim. Estudos de neuroimagem mostram que pessoas autistas apresentam maior atividade em regiões como o córtex pré-frontal dorsolateral, associado ao raciocínio lógico e à solução de problemas, além de uma conectividade aumentada nas áreas visuais e de processamento sensorial, o que pode contribuir para habilidades em artes visuais e criatividade. Além disso, há uma tendência ao pensamento sistemático, ou seja, uma facilidade em entender sistemas, padrões e regras — algo muito valorizado nas áreas de tecnologia e ciência.”

A ciência já identificou estratégias neurológicas que ajudam a melhorar a adaptação de autistas em ambientes corporativos?
“Sim. Há evidências de que ambientes estruturados, com previsibilidade e comunicação clara, favorecem a adaptação de pessoas autistas, pois reduzem a sobrecarga cognitiva e emocional. Do ponto de vista neurológico, a previsibilidade reduz a hiperativação da amígdala — estrutura ligada ao processamento de ameaças — e facilita o funcionamento do córtex pré-frontal, responsável pelo controle executivo e pela regulação emocional. Estratégias como pausas sensoriais, ambientes menos ruidosos e flexibilidade na comunicação também são comprovadamente benéficas.”
O estresse e a sobrecarga sensorial são desafios comuns para autistas no mercado de trabalho. Do ponto de vista neurológico, existem formas de minimizar esses impactos no dia a dia?
“Sim. O cérebro autista tende a processar estímulos sensoriais de forma amplificada, especialmente no córtex sensorial primário e nas áreas de integração sensorial. Para minimizar esses impactos, técnicas como pausas programadas, redução de estímulos auditivos e visuais no ambiente, e o uso de recursos como fones com cancelamento de ruído têm efeito positivo. Além disso, treinamentos de regulação emocional, como mindfulness e técnicas de respiração, favorecem a redução da hiperativação do sistema límbico, diminuindo o impacto do estresse.”
A inclusão de autistas no mercado de trabalho não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas também uma grande oportunidade para empresas que buscam inovação e excelência. Criar ambientes mais acessíveis e adaptados pode garantir que esses profissionais contribuam com todo o seu potencial, trazendo benefícios tanto para as organizações quanto para a sociedade como um todo.
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