O espetáculo “Na Beira da Imensidão – Histórias Sul-Realistas”, nova criação do Núcleo Pele, entra em cartaz em abril com uma circulação por três territórios de São Paulo. Ao todo, serão nove apresentações entre os dias 3 e 24, passando pela Brava Companhia, no Campo Limpo, Quilombaque, em Perus, e Galeria Olido, no Centro.
Com direção de Débora Marçal e dramaturgia de Rafael Cristiano, a montagem parte do cotidiano do Grajaú, no extremo sul da capital, para construir uma narrativa que mistura memória, ancestralidade e vida comunitária. A obra também traz como elemento central a relação dos moradores com as águas da represa Billings, considerada o maior reservatório de água em área urbana do mundo.
A proposta do espetáculo é olhar para histórias que, muitas vezes, não ganham visibilidade. “Fico pensando em como representar, no hoje, aquela parte do cotidiano de pessoas que moram às margens da sociedade que não é vista em uma olhada superficial. É como propor um mergulho na vida periférica cotidiana para encontrar o que neste espetáculo estamos chamando de encanto”, afirma o dramaturgo Rafael Cristiano.
A dramaturgia é construída a partir de fragmentos de histórias e encontros: personagens que refletem o dia a dia das ruas, relações de afeto, solidão, humor e espiritualidade. Entre as cenas, surgem situações como o amigo que incentiva outro a mudar de vida, o homem que encontra sentido nas águas e o cotidiano marcado por conversas e vínculos do bairro.
A encenação mistura realismo com elementos simbólicos, dialogando com cosmogonias afro-brasileiras e indígenas. A linguagem combina teatro narrativo, musicalidade e oralidade popular, criando uma atmosfera que transita entre o concreto e o imaginário.
O projeto dá continuidade à pesquisa do Núcleo Pele sobre teatralidade periférica, desenvolvida a partir do extremo sul da cidade. Durante o processo, o coletivo promoveu oficinas abertas e rodas de conversa com artistas e moradores, ampliando o debate sobre arte, território e modos de criação.
Entre as contribuições estão relatos de moradores da região da Billings, como o pescador Reinaldo, da Prainha, além de Luciana Beco e Laís Guimarães, envolvidas em iniciativas sociais ligadas à relação das comunidades com as águas.
A temporada integra o Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI II – edição 22, 2025/2026) e marca a ampliação da circulação do espetáculo, que teve apresentações iniciais em 2024 no Cantinho do Céu, local de origem do grupo.
Para os artistas, levar a obra a diferentes regiões da cidade também é uma forma de refletir sobre os 100 anos da represa Billings e sua importância para quem vive em seu entorno — não apenas do ponto de vista ambiental, mas também afetivo e cultural.
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