Rouquidão, pigarro e tosse seca persistente podem ser sinais de refluxo mesmo sem azia, alertam otorrino e gastroenterologista

Tosse que não passa pode ser refluxo? Especialistas explicam quando investigar

Por Andrezza Barros • 27 jan 2026
Tosse que não passa pode ser refluxo? Especialistas explicam quando investigar
Especialistas alertam para sinais que surgem fora do estômago

Tosse crônica, pigarro frequente, rouquidão ao longo do dia e sensação de “bolo” na garganta estão cada vez mais presentes nos consultórios — e, ao contrário do que muitos imaginam, nem sempre têm origem respiratória. Em diversos casos, esses sintomas estão relacionados ao refluxo gastroesofágico, mesmo quando não há azia ou queimação, o que dificulta o reconhecimento do problema e atrasa o diagnóstico.

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Segundo a otorrinolaringologista Dra. Roberta Pilla, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o refluxo pode atuar como gatilho importante da tosse crônica por diferentes mecanismos. “O conteúdo ácido pode irritar diretamente a laringe, causar microaspirações ou ativar reflexos nervosos que aumentam a sensibilidade das vias aéreas. A suspeita cresce quando a tosse é seca, persistente, piora ao deitar ou após as refeições e vem acompanhada de pigarro, rouquidão ou irritação na garganta — especialmente quando as causas respiratórias já foram descartadas”, explica.

Do ponto de vista digestivo, a gastroenterologista e hepatologista Dra. Patrícia Almeida, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, reforça que o refluxo nem sempre aparece como dor ou queimação no estômago. “Quando o ácido atinge regiões mais altas, como faringe e laringe, o refluxo pode se manifestar predominantemente por tosse crônica, pigarro e rouquidão. Essas estruturas são muito sensíveis, e a irritação repetida pode gerar sintomas respiratórios mesmo sem desconforto gástrico”, afirma.

A forma chamada “silenciosa” do refluxo — conhecida como refluxo extraesofágico ou laringofaríngeo — é uma das principais responsáveis pela confusão. De acordo com a Dra. Roberta Pilla, é essencial diferenciar sintomas de doença. “Rouquidão, pigarro e tosse seca podem estar associados ao refluxo, mas não confirmam o diagnóstico sozinhos. A laringoscopia ajuda a excluir outras causas, mas achados isolados não fecham diagnóstico. A avaliação clínica criteriosa é indispensável”, reforça.

O estilo de vida moderno também favorece o aumento dos sintomas. Para a Dra. Patrícia Almeida, hábitos comuns agravam episódios de refluxo. “Refeições rápidas, distração no celular enquanto se come, longos períodos em jejum, estresse constante e refeições volumosas aumentam a pressão no estômago e prejudicam os mecanismos naturais que evitam o refluxo”, diz.

Comportamentos após as refeições também fazem diferença. “Deitar logo depois de comer, beliscar o dia inteiro, consumir álcool, café, chocolate ou alimentos gordurosos são fatores conhecidos por intensificar a irritação na garganta e no esôfago”, acrescenta.

Antes mesmo de recorrer a medicamentos, ajustes simples podem ajudar no controle dos sintomas: evitar deitar por pelo menos 2 a 3 horas após as refeições, diminuir o volume do jantar, mastigar devagar, organizar horários e identificar gatilhos individuais. A perda de peso, quando necessária, também é um dos fatores mais efetivos.

Para as especialistas, a orientação é clara: quando o refluxo deixa de ser ocasional e começa a afetar a qualidade de vida, é hora de investigar.
“Tosse crônica, rouquidão prolongada, dificuldade ou dor ao engolir, sensação de engasgo, perda de peso sem explicação ou anemia são sinais que exigem avaliação médica”, conclui a Dra. Patrícia Almeida.

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