Conheça a história de Camila Pavan: a mãe que foi encontrar o amor no outro lado do mundo

Tempo de Leitura: 10 Minutos

O casal Camila Pavan e Adriano Garbelini, tiveram sua história contada no país inteiro, após passarem dias angustiantes para conseguir ter em seus braços, sua bebê Pietra, gestada em uma barriga de aluguel na Ucrânia, em meio a pandemia da COVID-19. 

O casal que está junto desde a adolescência, sempre sonhou em ter um filho, mas Camila que foi diagnosticada com AME, aos 9 anos de idade, enfrentou uma série de dificuldades no processo de maternidade, resultando em 2 abortos espontâneos.

Após essas tentativas, o casal foi em busca de entender como funciona o processo de barriga de aluguel, no Brasil essa prática não é permitida, mas é legalizada em países como Estados Unidos e Ucrânia.  

A primeira parada foi nos Estados Unidos, onde Camila passou por uma série de exames, e os médicos constataram que na infância ela recebeu o diagnóstico errado, e não possuía AME e sim Miopatia de Bethlem, outro tipo de distrofia muscular, por este motivo era muito arriscado ela engravidar, pois a doença genética poderia passar para seu bebê.

Foto: Reprodução/Instagram

De volta ao Brasil, Camila tentou fazer o processo de barriga solidária com sua cunhada, essa modalidade é permitida no país, desde que a grávida tenha um parentesco de até 4° grau com o pai ou mãe do bebê, mas o procedimento acabou não dando certo.

Com isso o casal saiu em busca da clínica ideal para realizar a barriga de aluguel, e encontraram em Kiev, na Ucrânia, o lugar perfeito, que unia segurança, preço fixo e um ótimo acompanhamento de todo o processo.  Venha conferir a entrevista e entrar um pouco mais na história do nascimento de Pietra!

Após uma enorme trajetória para conseguirem realizar o sonho de serem pais, a história de vocês se espalhou pelo Brasil inteiro, trazendo inclusive à tona a questão da proibição da barriga de aluguel no nosso país. Porque vocês acham que ainda existe tantas complicações em relação a essa prática, sendo que tantos brasileiros já ficaram conhecidos por buscarem essa alternativa no exterior?

Existem muitas pessoas que fazem esse processo fora do país, inclusive artistas que vão para os Estados Unidos e fazem lá. O que acontece aqui no Brasil, é que na minha opinião, eu acho que por ter uma legislação ainda um pouco incerta quanto ao assunto, eles têm medo de se tornar um comércio e sair do controle. Eu acho que é por isso, porque a barriga de aluguel aqui no Brasil, no caso, ela se enquadra naquela lei de que não pode vender órgão, não pode tal tipo de coisa, só pode a doação. Então para o útero de substituição, se eu fosse fazer uma barriga solidária, seria permitido, mas a barriga de aluguel envolvendo dinheiro não é permitido. Eu acho que isso é algo que deve ser mudado, porque vai legalizar coisas que acontecem hoje. Tem muitas pessoas fazendo uma falsa barriga solidária que na verdade é uma barriga de aluguel, então, eles entram com um pedido no CRM para autorizar essa pessoa que não é da família a fazer a barriga solidária, porém, por trás existe dinheiro. Então, acontece muito isso no Brasil, e se existisse lei para isso, faria tudo regularizado.

Foto: Reprodução/Instagram

Camila, a respeito da questão do “falso” exame que te atestou com AME aos nove anos de idade, e que depois foi desmentido o diagnóstico por um médico nos Estados Unidos, como foi sua reação ao lidar com essa questão e o que significa o AME e a Miopatia de Bethlem?

Eu fui diagnosticada com atrofia muscular espinhal que a gente abrevia como AME. O meu caso era o mais leve. O AME, ele tem um leque de estágios de classificação da doença, o meu era o mais leve, era como se fosse um modelo, o modelo mais leve. Eles fizeram exames e não conseguiram diagnosticar, mas, eles me diagnosticaram clinicamente como AME. Com isso, eu engravidei, sendo que não poderia engravidar, corri risco de vida e de passar a minha doença para criança, tudo por causa de um diagnóstico errado. Quando eu cheguei nos Estados Unidos foi que eu descobri isso. Eu tive que digerir novamente uma nova doença. Quando o médico nos Estados Unidos me falou que eu tinha a Miopatia de Bethlem, que é uma coisa totalmente diferente. O tratamento, por exemplo, no AME, eu podia fazer exercício e eu tinha que me movimentar sempre. Na Miopatia de Bethlem, eu não posso me cansar, se eu canso, eu mato o meu músculo. Eu passei 15 anos tratando errado, e quando eu fui para os Estados Unidos para buscar uma barriga de aluguel para fazer o processo, consequentemente acabei descobrindo esse meu problema, eu falei que precisava parar e entender como funcionava essa minha nova doença, por mais que eu já estivesse convivendo com ela tanto tempo, eu precisava descobrir como que seria a minha vida nessa nova adaptação. Nesse momento eu falei para o meu marido que quando ele se casou comigo, eu era diagnosticada com uma doença, agora eu estava com outra. Se ele quisesse ir embora, ele poderia ir, porque eu sabia que ele não tinha a obrigação de ficar comigo com uma coisa que ele não conhecia. Tudo passa na cabeça da gente. Foi bem difícil, você receber um diagnóstico, conviver com aquilo, e depois você descobrir que fez tudo errado durante tanto tempo. O futuro é diferente de uma doença para outra. Quanto à atrofia muscular espinhal e a Miopatia de Bethlem, ambas são distrofias, e não se sabe ao certo ainda como elas evoluem, porque cada pessoa é diferente da outra, não tem um padrão. São coisas que cada organismo reage de um jeito, então tem pessoas que tem Miopatia de Bethlem com 20 e poucos anos e que estão numa cadeira de rodas. Eu tenho 33 e tenho bastante dificuldade para levantar do chão e para levantar do sofá, mas tem gente que está com 39 ou 40 e que tem mais facilidades do que eu. Depende muito do organismo de cada um. 

Foto: Reprodução/Instagram

Após a tentativa da realização de barriga solidária com sua cunhada, vocês acabaram recorrendo à busca por uma solução em outro lugar, o que acabou resultando no encontro de uma clínica especializada na cidade de Kiev, na Ucrânia. Como foi a descoberta desse lugar e quais são as dicas que vocês poderiam passar para os futuros pais que estejam com experiências semelhantes às suas?

Sim, nós fizemos a barriga solidária com a minha cunhada, mas ela acabou perdendo a trompa. Por ela, a gente faria novamente, mas eu senti que levei o corpo dela por um sonho meu e eu não queria repetir isso, então fomos em busca de um lugar que a gente conseguisse pagar. Os Estados Unidos já estavam fora do nosso orçamento. Lá nos Estados Unidos, o valor passava dos $120.000 (R$ 640.620, na cotação atual). Eu encontrei um lugar na Ucrânia que era bem mais barato, mas o que me chamou muita atenção foi o detalhe de tentativas ilimitadas pelo mesmo valor, além de ter todas as necessidade que eu pudesse precisar na Ucrânia, já estavam inclusas. Isso me chamou atenção, porque eu teria condição financeira de pagar. Fui na cara e na coragem para o outro lado do mundo, sem referências, não conseguia reconhecer o rosto de ninguém que tivesse ido, ninguém queria mostrar a cara, era bem complicado. Agora, por isso que eu estou fazendo todo esse processo de divulgar e de me solidarizar com as pessoas, e mostrar a verdadeira história que é possível, e que por mais que seja lá do outro lado do mundo, com uma língua totalmente diferente, é possível fazer e dá certo. 

Foto: Reprodução/Instagram

A história de vocês é muito bonita já que percorreram em meio a uma pandemia todo um processo para poderem chegar a tempo para ver o bebê nascer. Ao tê-la em seus braços, qual foi o primeiro pensamento que vocês tiveram?

Quando eu peguei a minha filha nos braços, todas as lágrimas derramadas naqueles dez anos de tentativas ficaram muito pequenas perto da felicidade que eu estava sentindo. Toda dor que a gente passou ficou mínima perto da felicidade e da alegria do coração cheio de amor que a gente estava ali naquele momento, e que a gente vem vivendo isso todos os dias. Minha filha agora está com 10 meses, e isso não acaba, não diminui e só aumenta. É muito sofrido esse caminho, mas, depois tudo fica muito pequeno, toda dor fica muito pequena perto da felicidade que a gente vive. 

Qual foi o maior medo que vocês sentiram quando a pandemia chegou e estavam tão longe de sua filha?

O maior medo que eu senti foi da minha filha nascer e eu não estar com ela nos primeiros dias de vida dela. Isso para mim era inaceitável. Eu coloquei na minha cabeça que isso não aconteceria e lutei com todas as minhas forças para conseguir estar lá. Foi muito difícil, teve pais que não conseguiram. Entrar no meio da pandemia, eu fui a primeira brasileira que conseguiu, então, foi uma luta mesmo, literalmente uma luta. A sensação de quando eu cheguei no Brasil, era de que eu estava voltando de uma guerra, mas a vitória nas mãos. Todo esse processo de viajar no meio da pandemia foi muito estressante, mas valeu a pena.

Foto: Reprodução/Instagram

A pequena mal nasceu e já tem uma história épica de como seus pais lutaram para tê-la ao lado. Pensando em todos os trâmites que vocês acabaram tendo, pretendem realizar o procedimento novamente no futuro?

Sim, foi muito difícil ter a minha filha nascendo no meio da pandemia, mas a gente pretende sim dar um irmãozinho para a Pietra, ou uma irmãzinha. A gente já deixou o próximo contrato assinado, agora é esperar a Pietra crescer um pouquinho e aí dá um “start” no próximo processo, e depois a gente só vai precisar fazer uma viagem para ir buscar o bebê, ou os bebês. A gente não sabe o que o futuro nos reserva. Já deixamos todo o material colhido, o esperma e tudo mais. Então, a gente já está com o contrato assinado, e o processo já está encaminhado para quando a gente quiser iniciar, já iniciam as tentativas. Seja o que Deus quiser.

Qual seria a razão por tantos brasileiros buscarem esse tipo de alternativa fora de seu país?

A razão para que tantos brasileiros busquem esse tipo de processo fora do país, é porque aqui no Brasil não é regulamentado, e existem pessoas que, assim como eu, não aceitam fazer alguma coisa que seja fora da lei. É muito difícil você não ter o amparo da lei. Eu não ia conseguir dormir em paz se eu tivesse fazendo alguma coisa que não estaria amparada. No entanto, existem países que se pode sim fazer, porém não é legalizado 100%, é só uma brecha na legislação. Então, eu falei que preferia fazer nesses lugares, preferia um lugar 100% legalizado, porque você tem o amparo, é tudo certo. É uma prestação de serviço com contrato, com garantias, com regras, com deveres, tanto da barriga de aluguel, dos pais, quanto da clínica. Envolve muita gente, então, eu acho que tem que ser uma coisa muito bem amparada.

Foto: Reprodução/Instagram

Como foi todo o acompanhamento que vocês tiveram  lá na clínica em Kiev, na Ucrânia?

O acompanhamento que a gente teve lá em Kiev foi 100% muito bom, porque essa clínica que eu encontrei, ela dá todo o amparo. Ela ajudou na hospedagem, te fornece alimentação, transporte interno, busca e leva para a clínica, tirar as documentações da criança, tudo. Então é uma coisa que funciona. Eles já estão tão acostumados a fazer isso,  que eles já tem um roteiro muito programado e que funciona.


Resumo da história de um novo começo

Foto: Estúdio Regiane Pavan

“Dizem que a dor do parto é uma dor imensa, mas que esquecemos tudo quando pegamos nossos filhos no colo.⠀

Pois bem… O meu parto será quando eu conhecer a minha bebezinha, porém as dores eu já estou sentindo.

A dor de estar distante, da incerteza se conseguirei estar com ela no tempo certo, burocracia com governos fechando fronteiras, falta de vôos… Enfim, tudo o que vem acontecendo no mundo.

Então cheguei a conclusão sobre a questão se existe diferença entre uma mãe que dá à luz um filho do seu próprio corpo e de uma que gera apenas com seu amor e desejo. ⠀

Com certeza não existe diferença! Pois aquele amor incondicional que todas as mães têm, é o mesmo o amor que tenho pela minha princesa e que me dá forças para atravessar o mundo, romper o que precisar para poder estar com ela. ⠀

Este momento não está sendo fácil, pois, além da ansiedade normal de ter um filho, ainda tenho que lidar com todas estas situações “extras”. ⠀

Mas tem algo que tem me ajudado muito que são as orações que recebo, toda energia positiva e todo carinho que me dão tanta força. Então eu só tenho a agradecer a Deus por me fazer forte e cheia de pessoas boas no meu caminho. Obrigada a cada um de vocês que de alguma forma contribui para isso.”

Camila Pavan – 22 de maio de 2020 


Acompanhe Camila Pavan no Instagram

Autores

  • Andrezza Barros (Niterói, 21 de abril de 1995) é uma jornalista, colunista e entrevistadora do entretenimento.

  • Luca Rocha Moreira, mais conhecido como Luca Moreira, é um jornalista, escritor e entrevistador internacional brasileiro. Conhecido por suas entrevistas com mais de 500 personalidades em cinco países diferentes em seus primeiros três anos de carreira. É autor do livro "300 Histórias para Inspirar".

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *