O cancelamento pode ser um instrumento de poder, intolerância e opressão

O que é essa tal “cultura do cancelamento” que tem sido tão debatido atualmente? Para quem não sabe, o fato de cancelar alguém, significa em termos mais simples, atacar sua reputação. Colocamos como exemplo o caso do ator Armie Hammer que tem sido acusado de abuso, estupro e canibalismo.

Assim que as denúncias foram realizadas na internet, as pessoas começaram a “cancelar” o artista, isto quer dizer que, elas estão determinadas a fazer com que ele perca sua carreira após todos os ocorridos. Prova disso são as inúmeras propostas de trabalho que o mesmo tem perdido após as acusações.

E não é de menos, quando alguém de fato pratica coisas como as que ele está sendo acusado, no mínimo é necessário a perca do sucesso. Mas e se (não estou dizendo que o caso dele seja assim), quem está sendo cancelado, na verdade for a vítima da história?


Contando com isso que em minha visão, o termo usado após a exposição em Hollywood do ex produtor de cinema Harvey Weinstein e adaptada para os dias atuais, não é de grande benefício a ninguém. “Hoje, qualquer pessoa que tenha uma opinião divergente dos demais correr o risco de ser cancelado”. Essa fala da psicóloga Lucia Moyses, que já participou de uma entrevista aqui do Site, é exatamente o que eu quero dizer. Há realmente muitos e muitos casos de abusadores e que o exposed pode ajudar e muito. Mas existem as exceções (que são poucas), mas que existem de pessoas que são acusadas de forma indevida. E é nessa parte que precisamos tocar.


Sabemos da importância em denunciar quem fez algo ruim, mas devemos aprender a tomar cuidado com o que fazemos. Devemos expor, não julgar. A internet acabou se tornando um lugar onde todos acham-se os julgares e suas “leis” são as que valem. As pessoas precisam aprender que não é através da web que se julga alguém. Se alguém fez algo, é sim necessário expor, sem julgamento e então levar ao real juiz para que esse puna quem praticou o mal. Além disso, estes precisam aprender e entender que cada um tem sua própria opinião e que é necessário respeitar.

“Por um lado, o cancelamento pode ser uma forma de educar a sociedade. Por outro lado, quando o cancelamento passa a ser uma forma de punição aleatória, sem critérios, os canceladores passam a se igualar aos cancelados na intolerância ao diferente, na ditadura do pensamento, na banalização das punições”, Lucia Moyses.


Assim como também dito pela psicóloga, o ato de punir o cancelador ao invés de educá-lo ou reparar seu mal, torna-se um instrumento de opressão. “Para o cancelador, os efeitos na saúde mental podem ser benéficos ou extremamente maléficos. Denunciar um crime, ter a coragem de enfrentar uma pessoa poderosa, aparentemente intocável, pode ser muito benéfico para a nossa mente. Pode ser libertador. Pode nos dar uma sensação de justiça, de demonstração de coragem, até mesmo de arrebatamento. Mas pode também dar uma sensação de poder. O poder é inebriante. Quem detém o poder sente que não há limites, que nada pode detê-lo”. E é ai onde mora o perigo.


É possível ver durante toda a história do mundo, quanto maior o poder do ser humano, maior é o número de destruição que ele consegue causa. “Denunciar um estuprador pode ser catártico, mas cancelar pessoas simplesmente por darem sua opinião, por mais detestável que seja, pode ter um efeito catastrófico em nosso self, em nossa essência. Até onde podemos ir em nossos julgamentos? Até onde podemos ir quando decidimos que alguém merece ser condenado? É um assunto delicado e algumas pessoas podem acabar usando o cancelamento apenas para se sentirem poderosas ou se vingarem daqueles que simbolizam tudo o que as fizeram sofrer no passado”.


Para o cancelado, “os efeitos podem ser devastadores. O criminoso deverá pagar pelo seu crime e isso é mais do que justo. O preconceituoso, racista, intolerante, deverá rever seus conceitos ou se abster de tentar difundir suas ideias prejudiciais e ofensivas. Para aquele, no entanto, que simplesmente pensa de forma diferente, o cancelamento pode ter um efeito castrador, abalar sua autoestima, arranhar sua personalidade e retrair suas opiniões. Hoje, mais do que nunca, precisamos tomar cuidado com nossas opiniões. Ir contra o que é popular parece tão perigoso quanto as lutas nas arenas romanas. Expressar sua opinião, seu pensamento, pode ser tão perigoso quanto nadar contra a correnteza”. E não era para ser assim, não é?


Mesmo com tudo, as mídias conseguiram ajudar pessoas a encontrar sua voz, mas em alguns caso, acaba não sendo tão bom assim. “Finalmente poder falar livremente, protegidos pela falsa sensação de anonimato que a internet nos dá. Algumas pessoas abusam desse anonimato sendo desagradáveis e degradando quem ousa cruzar o seu caminho. Outras, no entanto, pela primeira vez conseguiram se expressar, encontrar a voz digital que não sabiam que tinham. Quem faz bullying digital, talvez aprenda com o cancelamento. Quem encontrou a sua voz, talvez a perca”.


Mesmo com seu lado negativo, há também um lado positivo do termo cancelamento. “Enfim, como tudo na vida, se for feito com critério e imparcialidade, o cancelamento pode ser uma ótima ferramenta de justiça, educação e catarse ou, pelo contrário, pode ser um instrumento de poder, intolerância e opressão”. Em qual lado da força você está?

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